Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.

Vladimir Barros

Trovoadas de março: querem calar no papel o que não conseguem calar na rua

Publicado em 26/02/2026 às 02:50
Imagem gerada por IA

Minha solidariedade ao radialista Cláudio André,  de Palmeira dos Índios que enfrenta o peso de um assédio judicial movido por uma figura pública que, ao invés de responder no campo do debate e dos fatos, prefere recorrer ao aparelho judicial como instrumento de intimidação — uma tentativa de constranger, cansar e silenciar quem insiste em dizer verdades incômodas. Quando a Justiça é acionada para intimidar, o alvo imediato é um profissional; o dano maior é coletivo, porque a cidade inteira perde um pouco de voz.

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Janeiro sempre foi mês de trovoada, pelo menos no imaginário do interior: um céu que avisa, um vento que muda de humor, uma promessa de água que chega fazendo barulho, como se a natureza precisasse se anunciar para ser respeitada. Só que este ano, as trovoadas de janeiro resolveram chegar no fim de fevereiro - atrasadas, meio sem graça, como convite de casamento entregue depois da lua de mel. E quando enfim desabaram, já não eram mais de janeiro: se misturaram às águas de março, confundidas, como se o calendário tivesse perdido a autoridade e a chuva tivesse tomado posse da própria pauta.

Aqui no Sertão, a gente aprende cedo que há coisas que não obedecem ao relógio: o inverno, a seca, a boa notícia, o aperto no peito, o dinheiro, a política. E, ultimamente, também não obedecem ao relógio as tempestades que não são do céu - aquelas que vêm de gente. As trovoadas que antes a gente ouvia na telha agora chegam em papel timbrado, em intimação, em postagem atravessada, em julgamento na esquina e, pior, em tribunal de rede social. Você abre a janela e não é o trovão: é o zunido de notificações chamando para o linchamento do dia.

O curioso é que as águas de março sempre tiveram uma fama quase poética: “fecham o verão”, dizem, como quem fecha um livro e guarda na estante. Só que, de uns tempos para cá, março não fecha nada: ele abre. Abre a porteira da ansiedade, abre a garganta do discurso pronto, abre a temporada das versões, abre o desfile de promessas que parecem guarda-chuva barato — protege num instante, rasga no primeiro vento.

E como é que a gente mede a chegada dessas chuvas fora de época? Pelo cheiro de terra molhada, sim, mas também pela velocidade com que a cidade muda de assunto. Ontem era a lama na rua; hoje é a lama no nome alheio. Ontem era a falta d’água na torneira; hoje é o excesso de água na narrativa. A água, quando cai, não escolhe: escorre por onde pode. A política também. E, às vezes, a política vira enxurrada: carrega gente, reputação, história, conversa antiga, amizade e até o direito de alguém falar sem ser atropelado.

No rádio, a voz sempre teve um poder que não cabe em legenda. O rádio não pede filtro bonito, não pede dancinha, não pede “tendência”. O rádio pede coragem e constância: estar ali todo dia, com a garganta como praça pública, dizendo o que muita gente comenta em silêncio. Talvez por isso mesmo o rádio incomode: porque ele não é só mídia; ele é companhia. E companhia, quando pensa, vira perigo para quem prefere o povo apenas como plateia - aplaudindo, não perguntando.

Aí entram os processos, as ameaças veladas, a coleção de tentativas de “ensinar” o sujeito a ser menos sujeito. É o tipo de trovoada que não molha o chão, mas encharca a vida. Você vê o alvo e acha que é individual - “problema dele”. Só que não é. Quando se tenta calar um comunicador pela via do cansaço, a mensagem é para todos: “não se meta”, “não fale alto”, “não cutuque”. E uma cidade que aprende a cochichar desaprende a reivindicar.

Talvez por isso as chuvas estejam confusas. Janeiro perdeu o rumo, fevereiro encurtou, março virou continuação. O clima parece metáfora e a metáfora parece clima. O tempo, que deveria organizar a vida, agora apenas assiste. As trovoadas de janeiro no fim de fevereiro lembram muito certas decisões públicas: chegam tarde, quando o estrago já foi feito, quando a urgência já perdeu a validade, quando o povo já se acostumou com a falta. E as águas de março, que deveriam “fechar o verão”, acabam fechando é a paciência.

Mas há uma diferença importante entre a chuva do céu e a tempestade de gente: a chuva, por mais bruta, tem uma utilidade. Ela vem, assusta, derruba folha, amansa a poeira, dá de beber à terra. A tempestade humana, quando nasce do abuso, não fertiliza: ela desertifica. Ela não rega; ela resseca. Porque ela ensina o medo como método. E medo, Vladimir, é o adubo mais eficiente da mediocridade.

O interior sabe reconhecer sinais. Antes da chuva, a formiga muda de comportamento; o passarinho muda de canto; a gente sente um “peso” no ar. Antes de certas perseguições, também há sinais: a conversa que afina, o elogio que vira silêncio, o sorriso que perde dentes, a mão que aperta com força demais. E há um sinal maior, quase sempre ignorado: quando alguém passa a confundir crítica com crime, pergunta com afronta, opinião com ameaça.

É nesse ponto que as trovoadas saem do céu e entram nos gabinetes, nos corredores, nos bastidores. Trovoada vira estratégia: “vamos dar um susto”. Água vira expediente: “vamos afogar o sujeito em papel”. E, se ele resistir, dizem que é teimosia. Não chamam de resistência porque resistência dá nome bonito ao que eles preferem chamar de “insistência”.

Mas a cidade, mesmo cansada, tem memória. A cidade lembra quem falou quando era difícil. Lembra quem segurou o microfone quando era mais fácil calar. Lembra quem pagou o preço de não se ajoelhar. E isso não é romantização do sofrimento - é um fato sociológico do cotidiano: a coragem cria raízes. Nem sempre dá frutos rápidos, mas cria raízes. E raízes, quando a água chega - mesmo confusa, mesmo tardia — conseguem segurar a terra para que a enxurrada não leve tudo.

Talvez por isso eu goste dessa imagem do calendário embaralhado: as trovoadas de janeiro chegando no fim de fevereiro e se misturando às águas de março. É como se o tempo dissesse: “não tenho controle sobre vocês”. E nós respondêssemos: “nem sempre tivemos”. Só que, entre a chuva e o abuso, há uma escolha que é nossa - não do céu: a escolha de não naturalizar a perseguição como se fosse parte do clima.

Porque uma coisa é a chuva fora de época. Outra é o silêncio imposto como estação.

E se março vier com água, que venha. Que lave a poeira do rosto e também a poeira das consciências. Que lembre à cidade que o direito de falar é um tipo de água: quando falta, tudo racha. Quando sobra, a vida anda.