Vladimir Barros
É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.Palmeira: uma injeção, uma dor e o retrato do caos
Há histórias que não pedem adjetivos. Elas gritam sozinhas. A de ontem, na UPA de Palmeira dos Índios, é uma delas. Uma criança, com fratura na perna e na bacia, foi atendida, examinada de forma superficial, recebeu uma injeção - como quem apaga incêndio com copo d’água - e foi mandada de volta para casa. Voltou com a dor. Voltou com o choro. Voltou com o sofrimento que ninguém quis enxergar.
A medicina falhou. O sistema falhou. O improviso venceu.
Durante a noite, a dor fez o que o atendimento não fez: denunciou a gravidade. No dia seguinte, os pais retornaram à UPA. Só então identificaram o óbvio que havia sido ignorado: fraturas graves. A criança precisou ser transferida às pressas para Arapiraca, a mais de 40 quilômetros de distância. Quarenta quilômetros de estrada para quem mora numa cidade que se orgulha de ter dois hospitais.
E aí vem a pergunta que dói mais do que a fratura:
por que Palmeira dos Índios ainda precisa mandar seus doentes para Arapiraca?
A cidade tem um hospital público recém-inaugurado, o Hospital do Médio Sertão, apresentado como solução definitiva para os problemas da saúde local. Trinta dias de discursos, fotos, promessas, solenidades. Tem também um hospital privado, o Hospital Santa Rita, que, embora particular, é financiado com recursos públicos. Dois hospitais. Muitas promessas. Pouca resolutividade.
Na prática, quando a urgência bate à porta, a resposta é a estrada.
A criança sofreu ontem, mas o episódio revela algo maior, mais profundo, mais grave: a saúde em Palmeira dos Índios está em colapso. Não é falta de prédio. Não é ausência de placa. É desorganização, falha de gestão, despreparo, improviso institucionalizado. É a cultura do “dá um jeito”, mesmo quando o que está em jogo é a vida.
E não é só a saúde. O caso da criança é apenas o sintoma mais cruel de um corpo administrativo doente. A infraestrutura vai mal. Os serviços públicos falham. A cidade tropeça em si mesma todos os dias. Palmeira dos Índios vive hoje um verdadeiro inferno administrativo, onde nada funciona como deveria e tudo é empurrado para depois.
Improvisar na política pode render discurso.
Improvisar na saúde gera dor.
Improvisar na gestão custa vidas.
É preciso dizer com todas as letras: não dá mais para fingir normalidade. Não dá mais para celebrar inaugurações enquanto crianças são mandadas para casa com fraturas não diagnosticadas. Não dá mais para aceitar que o cidadão pague impostos e receba estrada como resposta para emergência médica.
Palmeira dos Índios precisa tomar consciência. Precisa acordar. Precisa entender que política não é palco, não é marketing, não é promessa vazia. Política, quando trata da saúde, é responsabilidade absoluta. Erro não é detalhe. Erro é tragédia anunciada.
Ontem foi uma criança.
Amanhã pode ser qualquer um.
E quando uma cidade normaliza isso, ela não está apenas doente.
Ela está perdida.