Pedro Oliveira
Escritor e jornalista com vasta experiência em análise política. Autor dos livros “Arquivo Aberto/Crônica de um Brasil Corrupto”, “Brasil 2006 A História das Eleições” / “Manual Prático de Licitações e Contratos” “Resumo Político - Crônicas, histórias e os bastidores da política brasileira”. Articulista político da Tribuna do Sertão, Jornal Extra e Blog Resumo Político. Pós graduado em Ciências Políticas pela UnB, Presidente do Instituto Cidadão e Membro Coordenador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). Atuou no Diário de São Paulo, Revista NÓS ( SP), Diários Associados ( Jornal de Alagoas), Jornal de Hoje. Fundador do Jornal Opinião e do Correio de Alagoas, este junto com o jornalista Pedro Collor de Mello.Eleições, quem perder o trem, não encontra outra estação
Fevereiro termina e, com ele, acaba também o tempo da ilusão política. As conversas reservadas, os recados cifrados e os encontros discretos deram lugar a movimentos concretos. O tabuleiro eleitoral de Alagoas começou a se organizar independentemente da vontade do prefeito de Maceió, JHC. A indecisão prolongada sobre qual cargo disputará e se disputará deixou de ser estratégia para se transformar em problema. E problema grande.
A hesitação trouxe complicações não apenas para o seu grupo, mas também para setores da oposição que aguardavam um gesto claro para definir alianças e posições. Política não tolera vácuo. Quando um ator central demora demais, outros ocupam o espaço. E foi exatamente isso que aconteceu.
Sempre foi público e explícito o compromisso de apoio à candidatura de Arthur Lira ao Senado. Não se tratava de mera gentileza ou gesto protocolar. Havia ali uma parceria construída com base em protagonismo político, ações concretas em favor de Maceió e apoio decisivo em momentos sensíveis da gestão municipal. O capital político investido por Lira na capital era parte de uma engrenagem maior. Mas, nas últimas decisões, essa parceria foi desconsiderada ou, no mínimo, relativizada.
Nos bastidores, ainda circula a pergunta que ninguém responde oficialmente: o que motivou o adiamento de uma candidatura ao governo ou ao Senado? Medo de uma derrota? Ou receio de que fatos e atos ainda não revelados pudessem comprometer uma campanha majoritária? A dúvida corrói. E, na política, a dúvida costuma custar caro.
Enquanto o prefeito hesitava, o trem partiu.
Renan Filho fixou sua candidatura ao governo do Estado e entrou no jogo com uma engrenagem robusta, discurso alinhado e musculatura política testada. Carrega consigo a força de quem já governou, conhece a máquina e tem base estruturada. A percepção que se consolida é a de uma candidatura competitiva ao extremo, com densidade eleitoral real.
No Senado, Renan Calheiros caminha para a reeleição com o controle do maior partido do Estado, ampla capilaridade municipal e o apoio de dezenas de prefeitos e lideranças locais. Estrutura partidária, experiência e presença territorial formam um tripé difícil de ser enfrentado.
Para a segunda vaga, a candidatura de Arthur Lira desponta com força. Seu protagonismo nacional, a interlocução direta com Brasília, o volume de recursos federais destinados aos municípios e a rede de prefeitos e vereadores que ajudou a fortalecer criam uma base eleitoral sólida. Plantou em muitos municípios e agora é tempo de colheita.
O cenário que se desenha é de um tripé poderoso: Renan Filho ao governo; Renan Calheiros ao Senado; Arthur Lira disputando a outra vaga. Mesmo sendo adversários históricos em determinados momentos, caminham hoje em faixas paralelas rumo a uma vitória praticamente assegurada. Cada um com seu território consolidado, cada um com sua base organizada, cada um com sua estratégia definida.
Nesse contexto, sobra pouco espaço e menos ainda votos para uma candidatura majoritária do prefeito JHC. Ao postergar decisões, ao tensionar alianças e ao negligenciar compromissos considerados estratégicos, abriu flancos desnecessários. Política é soma, não é aposta solitária. E quem rompe pontes no momento errado pode descobrir que não há estrada alternativa.
Há ainda um componente psicológico que não pode ser ignorado: a percepção de força. Eleição também se ganha no imaginário coletivo. Quando prefeitos, vereadores e lideranças regionais começam a enxergar um bloco consolidado e competitivo, tendem a migrar para onde acreditam estar a vitória. A demora em definir rumo passa a transmitir fragilidade, e fragilidade afasta apoios. Ninguém quer embarcar em projeto que não demonstra clareza de destino.
O eleitor alagoano observa. E observa com pragmatismo. A esperança não embarca em vagões improvisados. Ela segue trilhos firmes, estruturas montadas e lideranças que demonstram capacidade de articulação. Quando o trem da esperança passa, não espera por indecisos.
Fevereiro se encerra com um recado claro: quem não decide a tempo pode assistir da plataforma. E, na política, perder o trem significa mais do que perder uma eleição significa perder relevância, influência e futuro.
O relógio corre. O trem já anda. E pode não haver outra estação.