Funcionários do Vaticano pedem compensação por perdas salariais durante pandemia
Manifestação ocorre um dia após Leão XIV revogar cortes para cardeais
A Associação dos Funcionários Leigos do Vaticano (ADVL) pediu para o papa Leão XIV considerar formas de compensação pelos aumentos salariais bienais por tempo de serviço que deixaram de ser acumulados durante as medidas de contenção adotadas na pandemia de Covid-19.
A manifestação ocorre um dia após as novas medidas anunciadas pelo pontífice, que restauram a remuneração integral de cardeais e dirigentes da Cúria Romana.
Segundo a associação, o Motu Proprio determina a revogação, a partir de 1º de setembro de 2026, das medidas de contenção salarial adotadas durante a emergência sanitária, mas mantém os efeitos produzidos enquanto elas estiveram em vigor.
Entre esses efeitos está a suspensão do acúmulo dos aumentos salariais bienais por tempo de serviço. Para os funcionários leigos, a revogação das medidas não prevê o pagamento retroativo dos valores que deixaram de ser incorporados aos salários nem estabelece uma compensação específica pelas perdas.
Por causa disso, a associação questiona se o Vaticano poderia adotar uma solução alternativa. "Se o reembolso integral dos valores deduzidos dos salários não for viável, a Santa Sé poderia considerar formas de reconhecimento único ou medidas compensatórias", como neutralizar o impacto da suspensão sobre verbas rescisórias e pensões dos funcionários.
Em comunicado, os funcionários também criticaram a ausência de uma consulta considerada genuína antes da adoção das novas medidas. A associação afirma ainda que pretende contribuir para uma "nova era de diálogo sincero e construtivo" com as autoridades da Santa Sé e do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano.
A entidade recordou que, durante a emergência sanitária, na gestão do papa Francisco, decisões sobre salários foram tomadas rapidamente e, segundo os trabalhadores, sem comunicação prévia adequada. Na ocasião, a associação enviou uma carta ao pontífice argentino alertando para os efeitos da suspensão dos aumentos por tempo de serviço sobre pensões e indenizações rescisórias.
Segundo a ADVL, essas perdas poderiam representar vários milhares de euros para alguns funcionários.
Durante a emergência, superiores do Vaticano argumentaram que as medidas contribuíram para evitar demissões. A associação reconhece que esse objetivo era compreensível diante das circunstâncias excepcionais, mas ressalta que a natureza específica da cidade-Estado não permite aplicar automaticamente à administração pública uma lógica semelhante à de uma empresa privada.
"Mesmo medidas adotadas em tempos de particular dificuldade devem sempre vir acompanhadas do devido respeito pela dignidade humana e pela sustentabilidade das consequências para as famílias", afirma a entidade.