Após terremoto de 4.7, 'campos ardentes' da Itália têm risco de novos tremores
Abalo sísmico em 'Campi Flegrei' deixou quase 30 feridos no sul do país
Centenas de pessoas passaram a noite fora de casa devido ao terremoto de magnitude 4.7 na escala Richter que sacudiu a região metropolitana de Nápoles, sul da Itália, na tarde da última sexta-feira (31), enquanto especialistas alertam para o risco de novos tremores ainda mais fortes.
O abalo sísmico não provocou mortes, mas deixou 26 feridos e causou desabamentos em edifícios e o desmoronamento de rochas em cidades como Pozzuoli, situada sobre a caldeira de um supervulcão subterrâneo.
Moradores procuraram abrigo em áreas de acolhimento em Pozzuoli e na periferia oeste de Nápoles, porém muitos preferiram passar a noite em seus carros ou nas casas de familiares e amigos.
A intensidade do terremoto foi potencializada pela baixa profundidade — 2,6 quilômetros —, reflexo de um fenômeno conhecido como "bradismo" (ou "bradissismo"), que se caracteriza pela elevação ou rebaixamento do nível do solo a partir do gás e magma acumulados nas profundezas. Essa área do sul da Itália é conhecida como "Campi Flegrei", termo em grego antigo para "campos ardentes".
"É possível que o enxame sísmico continue nas próximas horas ou dias, mas não é possível prever a duração, o número ou a magnitude dos tremores nem excluir completamente a possibilidade de que o recorde atual seja superado", explicou o geólogo Andrea Billi, do Instituto de Geociências do Conselho Nacional de Pesquisas (CNR-GEO).
O tremor de magnitude 4.7 foi o mais forte na região em mais de 40 anos e deu origem a uma sequência com mais de 170 réplicas registradas até o momento. "Trata-se de um novo episódio da crise bradissísmica que começou em 2005 e atualmente está em fase de aceleração", disse à ANSA a diretora do Observatório Vesuviano do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV), Lucia Pappalardo.
Por outro lado, segundo ela, os parâmetros de levantamento do solo e fluxo de CO2 no subterrâneo permanecem "dentro da norma" dos últimos meses. Já Billi também ressaltou que o terremoto da última sexta "não indica, por si só, a iminência de uma erupção vulcânica".
O "bradismo", que significa, literalmente, "movimento lento do solo", caracteriza a caldeira de Campi Flegrei há vários séculos, com períodos alternados de rebaixamento e levantamento do terreno. A atual fase de elevação teve início em 2005.
"O bradissismo está ligado a variações de pressão e temperatura subterrâneas, dentro de um complexo sistema vulcânico e hidrotermal. As causas do soerguimento estão sendo estudadas e podem refletir a pressurização do sistema hidrotermal, devido à migração e acumulação de água, vapor, dióxido de carbono e outros gases, com possíveis contribuições de fontes magmáticas profundas. Esses processos deformam as rochas e fazem o solo inchar. Quando as tensões excedem a resistência das rochas, estas se fraturam, e a energia liberada se propaga como ondas sísmicas", explicou o pesquisador do CNR.
Em meio a esse cenário, o ministro da Defesa Civil da Itália, Nello Musumeci, pediu "prudência e autocontrole" à população. Até o momento, oito edifícios e cinco estabelecimentos comerciais foram declarados como inutilizáveis, e cerca de 300 pessoas estão desalojadas. Ao todo, 26 indivíduos ficaram feridos, cinco dos quais continuam hospitalizados. Dois deles estão em estado grave.
Nápoles, a maior cidade do sul da Itália, não registrou danos, e a circulação ferroviária na zona já foi retomada, com exceção de um trecho entre Bagnoli e Torregaveta, que deve ser reaberto neste domingo (2), assim como o porto comercial de Pozzuoli.