EUROPA

Morte de imigrante em abordagem policial divide política na Itália

Caso envolvendo Abderrahim Fakir resultou em protestos violentos em Bolonha

Por Redação ANSA Publicado em 22/07/2026 às 10:47
Abderrahim Fakir tinha 42 anos e morreu após ser contido pela polícia ANSA

A morte do marroquino Abderrahim Fakir, de 42 anos, durante uma abordagem policial em Bolonha, no último domingo (19), desencadeou uma intensa crise política na Itália, manifestações em diversas cidades e confrontos violentos entre manifestantes e forças de segurança.

O Ministério Público de Bolonha abriu um inquérito por homicídio culposo para apurar as circunstâncias da morte, enquanto governo e oposição divergem sobre a condução do caso e responsabilizam-se mutuamente pela escalada da tensão.

Segundo as investigações preliminares, a polícia foi acionada após denúncias de que Fakir, que vivia na Itália desde criança, apresentava comportamento agressivo durante uma suposta crise psiquiátrica.

Os agentes tentaram contê-lo com spray de pimenta e o imobilizaram com mãos e tornozelos presos. Um vídeo gravado por um morador mostra Fakir deitado no chão, gritando por socorro e pedindo que a contenção parasse, antes de perder a consciência.

Investigadores apuram se policiais e paramédicos perceberam tardiamente que ele havia parado de respirar.

O inquérito envolve dois policiais e quatro socorristas da Cruz Vermelha e marca a primeira aplicação do chamado modelo 45 bis, mecanismo criado pelo recente decreto de segurança italiano para registrar, em uma seção separada, os nomes de agentes públicos investigados por atos praticados em serviço.

A Promotoria ressaltou que não há suspeitos formalmente indiciados e que o procedimento busca preservar as investigações periciais.

Na última segunda-feira (20), protestos organizados para exigir esclarecimentos sobre a morte de Fakir terminaram em confrontos no centro de Bolonha.

De acordo com a polícia local, 64 policiais ficaram feridos, seis viaturas foram danificadas e lojas, bancos e veículos públicos sofreram atos de vandalismo. Manifestantes lançaram garrafas e outros objetos contra a tropa de choque, que respondeu com gás lacrimogêneo e jatos d'água. Bombeiros também foram acionados após um artefato de fumaça provocar um incêndio.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que todas as responsabilidades pela morte de Fakir devem ser investigadas "com o máximo rigor", mas condenou os episódios de violência.

Para ela, "nada justifica a violência contra as forças da lei" e transformar policiais em alvo de ataques representa um ato "inaceitável" de grave irresponsabilidade.

O vice-premiê Matteo Salvini também criticou o que classificou como tentativas de alimentar o ódio contra agentes de segurança e defendeu que a investigação transcorra sem "linchamentos midiáticos".

"Exorto políticos e instituições a discordarem em muitas questões, mas a manterem os homens e mulheres de uniforme fora da disputa política — as forças de segurança, as Forças Armadas e as equipes de emergência e socorro. Que o Judiciário esclareça totalmente a situação, sem incitar a comoção pública para linchamentos midiáticos que podem se tornar extremamente perigosos", enfatizou o ministro de Infraestrutura.

Na mesma linha, o chanceler e vice-premiê Antonio Tajani afirmou que cabe ao Judiciário esclarecer os fatos e acusou setores da esquerda de incentivar manifestações que resultaram em violência.

"Convocar cidadãos para protestar e manifestar indignação, sabendo perfeitamente que a situação descambará para a violência e antes mesmo que os fatos sejam conhecidos, é um ato irresponsável e vergonhoso", destacou o chefe da diplomacia italiana.

Do lado da oposição, o líder do Movimento 5 Estrelas (M5S), Giuseppe Conte, destacou que Fakir morreu enquanto estava sob custódia policial e defendeu o completo esclarecimento do caso.

Já a secretária do Partido Democrático (PD), Elly Schlein, afirmou que "quando um homem morre durante uma operação policial, o Estado falhou" e disse que cabe às instituições garantir uma investigação completa, sem condenações ou absolvições antecipadas.

Por sua vez, o prefeito de Bolonha, Matteo Lepore, que participou de um ato pacífico em solidariedade à família de Fakir, condenou os confrontos e afirmou que os atos de violência "não representam Bolonha". Apesar disso, partidos da coalizão de direita e sindicatos policiais o acusaram de contribuir para acirrar os ânimos ao convocar a manifestação e chegaram a pedir sua renúncia.

Enquanto isso, novos protestos foram registrados em Milão, onde centenas de manifestantes pediram "verdade e justiça" para Fakir e denunciaram o que chamaram de "racismo de Estado".

A família da vítima também cobrou transparência nas investigações, mas repudiou os atos de violência, afirmando que busca apenas respostas e responsabilização dos envolvidos, caso sejam confirmadas irregularidades.