Itália confirma condenações por morte de paquistanesa que rejeitou casamento arranjado
Crime contra Saman Abbas em 2021 foi planejado e cometido pelos pais, tio e primos
A Suprema Corte de Cassação, instância máxima da Justiça italiana, confirmou, nesta quarta-feira (15), as condenações dos cinco familiares envolvidos no assassinato de Saman Abbas, jovem paquistanesa de 18 anos morta em Novellara, na província de Reggio Emilia, em 2021, após recusar um casamento arranjado.
Com a decisão, foram mantidas definitivamente as condenações à prisão perpétua dos pais da jovem, Shabbar Abbas e Nazia Shaheen, além dos primos Ijaz Ikram e Noman Ul Haq. O tio de Saman, Danish Hasnain, teve confirmada a pena de 22 anos de reclusão.
O Tribunal de Cassação rejeitou todos os recursos apresentados pelas defesas. De acordo com a acusação, Saman Abbas foi assassinada por se recusar a aceitar um casamento arranjado e por adotar um estilo de vida considerado "ocidental" e incompatível com as tradições impostas por sua família.
A Justiça italiana concluiu que o crime foi cometido com premeditação e por motivos considerados fúteis.
Após o assassinato, os pais da jovem fugiram para o Paquistão, mas posteriormente foram extraditados para a Itália para responder ao processo.
A advogada Valeria Miari, que representou o irmão de Saman, Ali Haider, afirmou que a decisão traz um desfecho judicial, mas não apaga as marcas deixadas pela tragédia. "A vida de Ali ficará destruída para sempre. Ele nunca se recuperará completamente, mas está tentando seguir em frente, apoiado por uma rede de instituições", declarou.
A associação italiana Differenza Donna, que atuou como parte civil no processo, classificou a decisão como um marco no combate à violência contra as mulheres.
A chefe do departamento jurídico da entidade, Maria Teresa Manente, afirmou que o julgamento reconhece que Saman foi assassinada por desafiar regras patriarcais e exercer seu direito de escolher como viver. Segundo ela, "sua liberdade foi considerada um crime aos olhos da família".
A advogada Rossella Benedetti, também da Differenza Donna, ressaltou que a decisão representa justiça não apenas para Saman, mas para todas as mulheres em situação de vulnerabilidade.
Ela defendeu que o caso reforça a necessidade de as instituições identificarem rapidamente sinais de risco e garantirem proteção eficaz para prevenir novos feminicídios.
A ex-prefeita de Novellara e atual conselheira regional, Elena Carletti, afirmou que a confirmação das condenações encerra o capítulo judicial, mas não o impacto causado pelo crime.
"Saman continua sendo uma ferida aberta no coração da nossa comunidade", declarou.
Carletti lembrou que acompanhou de perto o caso durante seu mandato e destacou que a cidade jamais esquecerá a jovem e seus sonhos interrompidos.
Para a ex-prefeita, a decisão reafirma que o assassinato foi planejado justamente dentro do ambiente que deveria proteger Saman. Ela concluiu destacando que o compromisso contra a violência de gênero e em defesa da liberdade das mulheres deve continuar para que tragédias como essa não se repitam.
"Num contexto em que há até quem negue a realidade dos feminicídios, o nosso compromisso contra a violência de gênero e em favor da emancipação e da liberdade de todas as mulheres certamente não termina hoje", enfatizou Carletti, lembrando que "devemos isso a Saman e a todas as meninas e mulheres que apenas pedem para poder escolher livremente o seu próprio futuro e o rumo das suas vidas."
Relembre o caso
Saman foi assassinada por supostamente não querer fazer um casamento arranjado, após ter denunciado a família em outubro de 2020 e ir para um centro de acolhimento.
Mensagens enviadas pela mãe, dizendo que os familiares desistiram do matrimônio, fizeram com que ela retornasse para casa em 30 de abril de 2021.
O dia foi o último em que Saman foi vista com vida. Entre a noite do dia 30 e a madrugada de 1º de junho daquele ano, câmeras de segurança próximas à residência da família mostraram o tio da jovem, Hasnain, e seus primos, Ijaz e Nomanhulaq com um grande saco de lixo nas costas, além de pás.
Entretanto, as autoridades italianas encontraram o cadáver da jovem só em novembro de 2022, e sua identidade foi confirmada em janeiro de 2023.