MP de Roma diz que Egito escolheu 'proteger' assassinos de italiano
Giulio Regeni foi sequestrado, torturado e morto no Cairo, em 2016
O procurador-adjunto de Roma, Sergio Colaiocco, afirmou nesta terça-feira (23) que o Egito optou por proteger os homens que torturaram e mataram o pesquisador italiano Giulio Regeni, em vez de levá-los à Justiça.
A declaração foi feita durante as alegações finais no julgamento à revelia de quatro membros dos serviços de segurança egípcios acusados pelo homicídio do jovem de 28 anos, ocorrido há mais de uma década.
"Um corpo destruído pela dor", disse Colaiocco ao exibir imagens de uma tomografia do cadáver de Regeni.
"É exatamente isso que o regime egípcio se recusou a investigar. É exatamente por isso que o regime egípcio escolheu proteger os perpetradores. Não responsabilizou seus próprios oficiais pelas atrocidades cometidas. Escolheu conscientemente acobertá-los", acrescentou.
O Ministério Público de Roma acusa o general Tariq Sabir e os coronéis Athar Kamel Mohamed Ibrahim, Uhsam Helmi e Magdi Ibrahim Abdelal Sharif de sequestro qualificado, homicídio qualificado e lesões corporais qualificadas, mas eles não compareceram a nenhuma das audiências pois o Egito se recusou a notificá-los sobre o processo.
Na audiência desta terça, o MP pediu a condenação de Sharif, tido como autor material do assassinato, à prisão perpétua e dos outros três a 17 anos e seis meses de reclusão cada um.
Regeni vivia no Cairo para preparar uma tese sobre sindicatos independentes para a Universidade de Cambridge, mas desapareceu no dia 25 de janeiro de 2016. Seu corpo só foi encontrado mais de uma semana depois, com evidentes sinais de tortura.
O italiano frequentava organizações sindicais clandestinas e contrárias ao presidente autocrata Abdel Fattah al-Sisi, o que levantou a hipótese de crime político. Segundo a acusação, os quatro agentes seguiam os passos de Regeni desde o fim de 2015 e o abordaram na noite de 25 de janeiro de 2016, no metrô do Cairo.
Em seguida, teriam conduzido o pesquisador contra sua vontade para uma delegacia e, depois, para um edifício onde ele ficaria em cativeiro. O MP diz que Regeni foi "seviciado durante dias", o que provocou "agudo sofrimento físico", inclusive por meio de "objetos escaldantes, chutes, socos, lâminas e bastões". Essas ações teriam causado "numerosas lesões traumáticas na cabeça, no rosto, no trato cérvico-dorsal e nos membros inferiores".
"O que está sendo julgado aqui não é a simples supressão de uma vida humana. O que está sendo julgado aqui é o exercício metódico, frio e organizado de violência contra um homem indefeso", declarou Colaiocco em suas alegações finais.
Segundo o procurador-adjunto, Regeni não foi apenas privado "da liberdade e da vida", mas também de sua "própria condição de ser humano detentor de direitos". "Quem cometeu tudo isso não foram criminosos comuns, foram homens do Estado, pertencentes a um aparato de segurança", disse.