VIOLÊNCIA

Haiti: Médicos Sem Fronteiras suspende atendimento em maternidade após aumento da violência

Confrontos armados em Cité Soleil deixam milhares de mulheres sem acesso a cuidados de saúde

Por Assessoria Publicado em 19/06/2026 às 16:15
Médicos Sem Fronteiras suspende atendimentos em maternidade atingida pela violência MSF

Porto Príncipe, 19 de junho de 2026: Desde a noite de 13 de junho, a violência tem se intensificado nos arredores da Maternidade Isaïe Jeanty, apoiada por Médicos Sem Fronteiras (MSF), em Cité Soleil, no Haiti. Presas no fogo cruzado e enfrentando uma situação insustentável, as equipes foram forçadas hoje a suspender suas atividades médicas. O acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva, já extremamente limitado na região, agora é praticamente inexistente. Milhares de pessoas, principalmente mulheres, não conseguem buscar atendimento médico seguro.

Nos últimos cinco dias, confrontos violentos entre diversos grupos armados têm ocorrido nos bairros de Belekou, Fort-Dimanche e Cais Jérémie. Os tiroteios continuam e atingem diretamente os muros da Maternidade Isaïe Jeanty, no bairro de Chancerelles, provocando deslocamentos e pânico entre as comunidades da região.

Na noite de 15 de junho, mais de cem pessoas — em sua maioria mulheres e crianças — que fugiam dos combates buscaram refúgio e acesso à água dentro da maternidadeUma mulher foi ferida na perna por uma bala perdida dentro das dependências do hospital e foi estabilizada por nossas equipes no local. O hospital de MSF em Tabarre também atendeu pessoas feridas em decorrência dos confrontos na região.

Com a escalada dos combates, as autoridades foram obrigadas a suspender as atividades na manhã seguinte. MSF continuou a prestar cuidados de emergência, estabilização de pacientes, e a realizar encaminhamentos por vários dias, mas foi obrigada a evacuar sua equipe e a suspender todas as atividades na manhã de 19 de junho.

“Tentamos fornecer um nível mínimo de suporte vital à população com uma equipe reduzida e capacidade limitada. Atendemos várias mulheres que conseguiram chegar à maternidade apesar da insegurança, incluindo uma que deu à luz a gêmeos. Mas hoje não podemos mais continuar: o hospital está crivado de balas, nossas equipes estão exaustas e tornou-se extremamente difícil para as ambulâncias encaminharem pacientes e encontrarem instalações capazes de recebê-las”, disse Nicholas Tessier, coordenador de projeto de MSF no Haiti.

Em Cité Soleil, onde moram cerca de 300 mil pessoas, o acesso à saúde para mulheres é quase inexistente. Muitas são obrigadas a dar à luz em casa em condições precárias, aumentando significativamente o risco de complicações obstétricas.

A suspensão das atividades na maternidade Isaïe Jeanty, causada pelo aumento da violência, agrava ainda mais uma situação já crítica: agora, as mulheres praticamente não têm opções de atendimento. MSF já havia sido obrigada a suspender temporariamente suas atividades em maio em seu hospital em Cité Soleil, localizado a poucos quilômetros da maternidade. Com a deterioração contínua da situação de segurança, todo o sistema de saúde da região está ameaçado.

É essencial que os grupos armados respeitem os civis e que as instalações de saúde sejam protegidas a todo custo, para que as equipes médicas possam cuidar de quem precisa.