DEPOSIÇÃO DE MADURO

Macron comemora queda de Maduro, mas defende “transição pacífica” e expõe contradição da França no tabuleiro global

Por Redação Publicado em 04/01/2026 às 08:05
O presidente da França, Emmanuel Macron Reprodução

O presidente da França, Emmanuel Macron, publicou uma mensagem nas redes sociais celebrando o que classificou como a “libertação” do povo venezuelano da ditadura de Nicolás Maduro. O tom, no entanto, chamou atenção não pela firmeza, mas pela ambiguidade: ao mesmo tempo em que saúda o fim do regime, Macron afirma que a Venezuela deve caminhar para uma “transição pacífica, democrática e plenamente respeitosa da vontade soberana” — discurso que soa deslocado diante da gravidade dos acontecimentos.

Na publicação, Macron afirma:


“O povo venezuelano está hoje libertado da ditadura de Nicolás Maduro e não pode senão celebrá-lo.


Os venezuelanos podem contar com o apoio da França para levantar a voz por uma transição pacífica, democrática e plenamente respeitosa de sua vontade soberana.”

A mensagem tenta equilibrar dois campos opostos: aplaudir a queda de um governo autoritário e, simultaneamente, preservar uma retórica de cautela diplomática. O resultado é um posicionamento que, longe de projetar liderança, revela a dificuldade da França em assumir um papel claro num momento de inflexão histórica.



Ao falar em “transição pacífica” depois de reconhecer o colapso de uma ditadura, Macron evita nomear responsabilidades, ignora o peso de sanções, pressões internacionais e — sobretudo — o sofrimento prolongado do povo venezuelano.

A escolha das palavras parece desenhada para não desagradar aliados estratégicos nem fechar portas em negociações futuras, ainda que isso custe coerência política.

Na prática, o presidente francês tenta ocupar o lugar confortável do observador benevolente: celebra o desfecho, mas se abstém de reconhecer o conflito real que o produziu. Essa postura contrasta com declarações mais diretas de outros líderes internacionais e reforça a percepção de que a França, sob Macron, prefere o verniz diplomático à assertividade.


O episódio expõe o tamanho político de Macron no cenário global atual: um líder que fala em valores universais — democracia, soberania popular, paz —, mas hesita em assumir posições claras quando elas exigem custo político. Diante de uma Venezuela devastada por anos de autoritarismo, êxodo em massa e colapso econômico, a mensagem francesa soa mais como um ajuste retórico do que como compromisso efetivo.

Ao final, o posicionamento de Macron revela menos sobre a Venezuela e mais sobre a França que ele representa: uma potência que já foi protagonista das grandes decisões internacionais, mas que hoje parece limitada a declarações cuidadosamente calculadas — seguras, polidas e, sobretudo, inofensivas.