Dia da Eleição nos EUA é marcado por tensões e aumento no voto antecipado
Com intervenções do governo e alegações de fraude, o pleito gera preocupação entre eleitores e autoridades.
O último dia de votação das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos ocorre nesta terça-feira, 3, em meio a incertezas, após um ano em que o presidente norte-americano, Donald Trump, tentou interferir na forma como os estados conduzem o processo eleitoral e lançou dúvidas sobre o resultado caso os republicanos percam.
Milhões de norte-americanos já votaram, e a participação no voto antecipado caminha para superar a registrada nas últimas eleições de meio de mandato. Em contraste com a retórica recorrente do presidente sobre fraude eleitoral, a votação até aqui transcorreu com relativamente poucos problemas.
Trump passou meses tentando usar o peso da presidência para influenciar a disputa, que definirá se seu partido manterá o controle do Congresso.
Os departamentos de Justiça e de Segurança Interna se envolveram em uma ampla ofensiva para localizar eleitores que não seriam cidadãos dos EUA. Em um dos episódios mais visíveis, uma operação antes do amanhecer - planejada para as câmeras - resultou na prisão de mais de duas dezenas de pessoas na Califórnia.
O Departamento de Justiça também preparava o maior esquema já realizado para monitorar locais de votação no Dia da Eleição, medida contestada por uma mobilização ainda maior de democratas e grupos aliados. Além disso, por orientação do presidente, o governo entrou na Justiça para tentar impedir a certificação dos resultados do Alasca caso a disputa ao Senado terminasse favorável aos democratas.
Ao mesmo tempo, alegações falsas e repetidas de Trump sobre fraude generalizada levaram autoridades eleitorais e grupos democratas em todo o país a se preparar para cenários extremos, como a presença de agentes de imigração em locais de votação ou a apreensão de máquinas por autoridades federais. O governo afirmou que não haveria agentes federais armados guardando as seções eleitorais no Dia da Eleição.
Na véspera da votação, nenhuma das medidas mais temidas pelos democratas havia se concretizado, e as manobras legais do governo foram, em grande parte, barradas pelos tribunais. Uma das tentativas de maior repercussão foi rejeitada na noite de segunda-feira pela Suprema Corte dos EUA, que não acolheu o pedido para obrigar a Califórnia a separar milhares de cédulas como parte da busca por supostos eleitores não cidadãos.
Até mesmo o histórico do próprio governo em prisões e acusações reforça o que pesquisas e investigações estaduais vêm apontando há anos: casos de não cidadãos votando são extremamente raros.
A decisão de segunda-feira veio após outra derrota de Trump na Suprema Corte. Há menos de dois meses, o tribunal rejeitou a tentativa de limitar a votação pelo correio por meio de mudanças no Serviço Postal. A diretriz fazia parte de uma das duas ordens executivas assinadas por Trump em seu segundo mandato com o objetivo de federalizar certos aspectos do processo eleitoral - apesar de a Constituição atribuir aos estados, e às vezes ao Congresso, a autoridade para estabelecer regras eleitorais.
Nesta terça-feira, os primeiros locais de votação devem abrir às 6h (horário local) em alguns estados: Connecticut, Indiana, Kentucky, Louisiana, Maine, Missouri, Nova Jersey, Nova York e Virgínia.
Chuvas intensas e enchentes repentinas em uma faixa do Sudoeste no fim de semana devem dificultar o deslocamento de eleitores em áreas do Colorado, do Arizona e do Novo México. A maior parte dos endereços de votação não mudou, mas novas alterações podem ser anunciadas conforme as autoridades avaliem a situação.
Administradores eleitorais e defensores do direito ao voto vêm orientando eleitores que ainda precisam entregar cédulas de voto ausente a usar caixas de coleta ou levá-las pessoalmente aos locais de votação, em vez de enviá-las pelo correio.
O alerta surgiu após preocupações de que mudanças recentes nas operações do Serviço Postal dos EUA provoquem atrasos na datação do carimbo postal, o que poderia impedir a contagem de cédulas enviadas por correspondência.
Durante as primárias deste ano, cédulas que chegaram tarde ou com carimbo postal fora do prazo fizeram com que dezenas de milhares de eleitores não tivessem seus votos contabilizados na Califórnia, em Oregon e em Washington, estados que enviam cédulas a todos os eleitores.
A principal fonte de possível turbulência às vésperas do Dia da Eleição tem sido as tentativas do governo Trump de interferir. Grupos de direitos de voto, democratas e o Departamento de Justiça vêm trocando uma série de petições e manifestações judiciais sobre supostos eleitores não cidadãos, monitores federais, possível intimidação de autoridades eleitorais e outras preocupações.
Os processos mostram como a tentativa de ampliar o controle federal sobre eleições administradas pelos estados - somada a disputas de alto risco - vem gerando batalhas judiciais que podem se estender além do Dia da Eleição, avançando pela contagem e pela certificação dos resultados.
Especialistas em direito eleitoral avaliam que as ações de Trump fogem às normas históricas, mas consideram improvável que os argumentos do governo convençam os tribunais.
Trump também voltou a deixar em aberto se considerará legítimo o resultado, como já fez no passado. Uma semana antes do Dia da Eleição, ao ser questionado por um repórter se aceitaria o desfecho, ele respondeu com ressalvas. "Vou aceitar, se forem honestos", disse. Fonte: Associated Press.