POLÍTICA

Contato entre Finlândia e Noruega com a Rússia gera divisões na Europa

Líderes finlandês e norueguês quebram afastamento de quatro anos ao conversarem com Putin.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 02/11/2026 às 09:26
Análise sobre o impacto da retomada de diálogos entre Finlândia, Noruega e Rússia. © AP Photo / Olivier Matthys

A ação reacende o debate sobre um racha europeu no apoio a Zelensky e expõe o desejo de certas nações europeias de garantir lugar em mesas de negociação de paz sem depender apenas dos EUA.

Para Valdir Bezerra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo, o recente contato de Helsinque e Oslo com Moscou demonstra que o conflito tem cobrado altos custos sociais no continente europeu, fazendo com que aliados tenham posicionamentos diferentes.

"O conflito na Ucrânia tem afetado de forma muito grande o custo de vida, de energia e dos alimentos. Essas crises têm sido muito fortes nos países centrais, na Alemanha, na França e na Itália, como a gente pôde perceber nos últimos tempos. Dificilmente a gente imaginaria que uma ligação dessa natureza pudesse ter sido feita pelo Macron, pela Meloni, e partiu de forma surpreendente da Finlândia e da Noruega", disse.

O pesquisador também enfatiza que a russofobia por parte de alguns governos europeus acaba impossibilitando um diálogo maior com a Rússia, e essa divergência termina sendo prejudicial ao próprio continente europeu.

"Num mundo ideal, os europeus e os russos são parceiros orgânicos. Quando Putin chegou à presidência, ele foi o único líder russo convidado a falar no Bundestag [parlamento alemão] e disse que a Rússia tem abundância de recursos naturais e a Europa, de recursos industriais, e que, se essas duas partes [se unissem], formariam um continente autônomo. Mas a russofobia impediu que isso acontecesse", comenta.

Nórdicos temem a crise dos países da Europa Central

Bezerra também aponta que esses impactos ameaçam o bem-estar nos países nórdicos, espelhando o desgaste econômico e político que já afeta potências da Europa Central, como Alemanha, França e Itália.

"Os problemas que a gente vem acompanhando na França, na Bélgica e em alguns países centrais no contexto europeu têm muito a ver com o aumento do custo de vida e a insatisfação da população jovem. O padrão de vida dos países nórdicos é alto até mesmo em relação à Europa Ocidental. Eles percebem que, se não tiverem cuidado, [manifestações] podem acabar acontecendo nas suas próprias ruas", destaca.

Neste panorama, o analista internacional atribui a crise socioeconômica europeia ao impacto das sanções da União Europeia contra a Rússia. Como Moscou era a principal fornecedora de energia para o bloco, a ruptura provocou um efeito dominó que inflacionou o custo de vida dos cidadãos, afetando desde as contas de luz e gás até o preço dos alimentos.

"Agora, o que causou [essa crise europeia]? Além de outros fatores, como os efeitos deletérios do neoliberalismo, foram as políticas, as ações aplicadas contra a Rússia. Por quê? A gente está falando de aumento de custo de vida. O aumento no preço dos produtos básicos, o aumento no preço de energia, na conta de energia, o aumento no preço de gasolina. Isso acaba tendo um efeito dominó muito grande", observa.

Europa precisa da Rússia para fortalecer a segurança

Outro ponto levantado por Valdir Bezerra é que se mostra impossível discutir uma arquitetura de segurança estável para a Europa baseando-se apenas nos anseios da OTAN. De acordo com o especialista, qualquer estabilidade duradoura no continente exige, obrigatoriamente, a inclusão do Kremlin nas mesas de negociação.

"Discutir a segurança da Europa sem a Rússia é uma tarefa altamente contraproducente. Moscou, desde meados dos anos 2000, vinha pleiteando a elaboração de uma arquitetura de segurança europeia. Mas isso não foi feito, porque a arquitetura de segurança da Europa eram interesses elaborados por pensadores estrategistas americanos, que pregavam uma expansão contínua da OTAN para o leste", conclui.

Em um mundo multipolar com novos polos econômicos em ascensão, a soberania outrora ostentada pela Europa Ocidental encontra-se em xeque. Pressionado por decisões diplomáticas que parecem ignorar essa fragmentação do poder global, o bloco europeu vê sua autonomia e seu peso geopolítico severamente desgastados.