Atos em São Paulo questionam visita de Flávio Bolsonaro aos EUA e denunciam ataques a indígenas
Atos contra a ida do senador Flávio Bolsonaro ocorreram em diferentes estados, destacando crises políticas e sociais.
O protesto foi marcado para a Praça Roosevelt, no centro da capital paulista, depois de o parlamentar escrever uma carta em que se declarava presidente legítimo do Brasil, mesmo após a derrota para Lula da Silva (PT). Movimentos estudantis convocaram atos em nove estados.
Lula foi reeleito no segundo turno, em 25 de outubro, com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro, ou 48,21%. Na noite da votação, o senador afirmou que não reconhecia o resultado e que recorreria à Justiça para pedir a anulação da eleição.
Naquele mesmo domingo, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou apreensão dos passaportes de Flávio e proibiu que ele deixasse o país, em um processo que investiga o senador e o advogado Willer Tomaz por suspeita de lavagem de dinheiro. Ele foi intimado a entregar os documentos até as 11h00 de terça-feira (27), mas não os entregou. A Polícia Federal cancelou o passaporte e comunicou o descumprimento a Moraes.
A PF informou, na quarta-feira (28), que investiga as circunstâncias da saída do senador do Brasil e que não encontrou registro de passagem por postos migratórios.
No mesmo dia, já em território americano, Flávio divulgou uma carta em que se apresentava como "o verdadeiro presidente eleito do Brasil", horas depois de desembarcar em Miami. Após a repercussão, ele editou o texto e retirou o trecho.
Na carta, o senador disse que pretende liderar a oposição diretamente dos Estados Unidos. Ele afirma que não fugiu do Brasil. Segundo Flávio, ele levou a família por questões de segurança jurídica e saiu para atuar como liderança sem as restrições que, a seu ver, o atual regime impõe à oposição.
Para a enfermeira aposentada Edva Aguilar, o ato é uma resposta à ideia de que o país possa ser entregue a interesses externos. "O Brasil não vai ser colônia de ninguém. Chega de colonialismo nesse mundo, né? Já foi. Apesar de que existe o colonialismo digital, e desse também a gente tem que se livrar, tem que realmente cortar as pernas da Meta*, que fez muito estrago na nossa eleição. E mesmo assim nós ganhamos com o Lula", disse.
"O Brasil é soberano, o Brasil é dono de suas riquezas e o Brasil é o povo. O povo é dono do seu patrimônio, não está à venda a preço de banana."
Questionada sobre a importância de um ato após a eleição, ela afirmou que "o povo nas ruas e nas redes vai ajudar o presidente Lula a governar, vai ajudar a que se aprovem as pautas". E concluiu: "todo mundo tem medo de povo na rua".
Violência contra indígenas
Outra pauta do ato foi a violência contra povos indígenas no Mato Grosso do Sul. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) afirma ter contabilizado mais de 30 casos de violência contra indígenas no estado relacionados ao processo eleitoral deste ano.
Segundo a entidade, as ocorrências incluem ataques, ameaças e atropelamentos que já provocaram mortes, e um dos episódios foi registrado em Tacuru (MS) na noite de 25 de outubro, pouco depois da divulgação do resultado. A Apib relata ainda que a casa da rezadeira Ñandesy Roberta, de 90 anos, foi incendiada na aldeia Jaguapiré, também em Tacuru, na quinta-feira (29). Segundo a entidade, o incêndio destruiu instrumentos sagrados usados em rituais.
Em ofício ao MPF e ao Ministério dos Povos Indígenas, a Apib relacionou as violências ao descontentamento de apoiadores da candidatura derrotada e apontou atos de retaliação política. Na quarta-feira (28), um funcionário da Prefeitura de Tacuru teria sugerido, em mensagem de WhatsApp, que a água consumida pelos indígenas da Aldeia Sassoró fosse envenenada. A prefeitura informou que afastará o funcionário.
O Ministério dos Povos Indígenas acionou a Polícia Federal na quinta-feira (29). O MPF em Mato Grosso do Sul instaurou procedimentos para apurar a veracidade das denúncias.
O órgão descartou a existência de crime em ao menos um dos casos já analisados e informou que as aldeias Guarani Kaiowá vão receber proteção da Força Nacional.
A Apib entregou na quinta-feira (29) carta ao presidente Lula da Silva (PT) pedindo proteção às comunidades. Segundo a entidade, seis indígenas Guarani Kaiowá foram assassinados no estado entre 2022 e 2026.
A artista e ativista Agnes Samara, afirmou que a região Centro-Oeste é dominada pelo agronegócio. "É sabido também que existe uma batalha histórica entre fazendeiros e indígenas."
"Visto que Lula ganhou as eleições e não Bolsonaro, que é defensor do agronegócio, inimigo dos povos indígenas, os fazendeiros se sentiram no direito de atacar os povos indígenas, de incendiar suas aldeias, de assassinar lideranças e outros indígenas, como forma de opressão, de mostrar que o Bolsonaro não ganhou, mas quem manda aqui é a gente. E não é assim que acontece, porque os povos indígenas estão nessa terra há mais de 526 anos."
Agnes citou também os Yanomami e, para ela, o protesto nas ruas é parte dessa pressão: "Felizmente ou infelizmente, o governo escuta mais a voz de quem está nas ruas da cidade".