AGROPECUÁRIA

Estudo alerta sobre perdas na produtividade da soja

Pesquisa da UFV aponta que proteção contra pragas pode evitar perdas de até 55% na produção de soja no Brasil.

Por Vitor Abdala - Repórter da Agência Brasil Publicado em 31/10/2026 às 15:47
Estudo revela que falta de proteção à soja pode causar perdas de até 55% na produtividade.

Estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a Croplife Brasil, revelou que as lavouras de soja no país teriam perdas de até 55% na produtividade se não forem protegidas contra pragas, doenças e ervas daninhas.

Segundo a pesquisa, uma redução na produção poderia impactar negativamente a economia brasileira e aumentar os preços de produtos ao consumidor.

O uso de defensivos químicos, no entanto, é um método de proteção controverso, já que algumas substâncias podem ser nocivas ao meio ambiente e à saúde humana, conforme levantamento publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A soja, junto com milho e cana-de-açúcar, representa 76% do consumo de agrotóxicos no Brasil.

Doenças nas lavouras

O estudo da UFV analisou simulações envolvendo quatro doenças, como a ferrugem-asiática e a mancha-alvo, além de cinco pragas, como a mosca-branca, e nove plantas daninhas.

Os pesquisadores avaliaram três cenários: sem controle, com controle parcial (40%) e com controle ótimo (80%). A produtividade por hectare com controle ótimo pode chegar a 72 sacas; com controle parcial, a produtividade é de 52 sacas, e sem controle, apenas 32 sacas, totalizando uma perda de 55%.

Para compensar as perdas pela falta de controle fitossanitário, seria necessária uma área adicional de 33,5 milhões de hectares, quase do tamanho do estado de Goiás. A perda média chega a 121,3 milhões de toneladas, estimada em R$ 223,5 bilhões.

Com controle ótimo, a receita brasileira com exportações de soja poderia chegar a US$ 44,2 bilhões, enquanto sem controle recuaria para US$ 26,6 bilhões, resultando numa diferença de US$ 17,6 bilhões por safra, conforme o estudo.

A redução na oferta pode elevar o preço da soja em até 49%.

Isso acarretaria um aumento de cerca de 0,26 ponto percentual na inflação oficial, medida pelo IPCA, já que a alta da soja impactaria os preços de produtos como óleo, leite e ovos.

"Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, como o óleo de soja e o farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, pode haver uma mudança nos preços das carnes, como de porco e frango, já que tudo isso faz parte da cadeia de produção da soja", destaca a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho.

O estudo considera quatro métodos de controle fitossanitário: biotecnologia (organismos geneticamente modificados), melhoramento genético, bioinsumos e defensivos químicos, além do manejo integrado, que combina esses métodos.

Defensivos

Estudo do Ipea sinalizou que, entre 2003 e 2023, o uso de defensivos químicos aumentou 4,4 vezes no Brasil, passando de 180 mil toneladas para 800 mil toneladas anualmente.

Com esse aumento, o Brasil tornou-se o país com o maior uso de agrotóxicos por hectare plantado, com 10,9 quilos por hectare, quatro vezes mais que os Estados Unidos (2,85 kg/ha) e cinco vezes mais que a China (1,9 kg/ha).

"Os defensivos químicos podem ser prejudiciais à saúde humana, causando efeitos agudos e crônicos. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos e afetar organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, comprometendo a biodiversidade", alerta o pesquisador da Embrapa, Robson Barizon.

Barizon adverte que organismos geneticamente modificados podem reduzir o uso de agrotóxicos ou incrementá-lo. Algumas plantas OGM são imunes a doenças, dispensando defensivos, enquanto outras são resistentes a agrotóxicos, podendo levar os produtores a utilizar doses maiores de substâncias.

"Nos OGM aprovados para comercialização, não existem evidências científicas robustas de riscos adicionais à saúde humana. Os impactos ambientais estão ligados às características da modificação genética e ao uso intensivo de herbicidas, que na verdade, favorecem a seleção de ervas daninhas resistentes", explica Barizon.

Pedro Duarte, coordenador de Sustentabilidade da Croplife, afirma que o setor se preocupa com a segurança dos químicos usados na proteção das lavouras.

"Para que um produto seja aprovado no Brasil, um defensivo químico passa por diversos estudos. Há um investimento substancial do setor para garantir a segurança dos produtos aplicados nas recomendações", afirma Duarte.

Entre 2005 e 2019, foram registrados 3.151 novos agrotóxicos no Brasil, sendo apenas 20% classificados como de baixa toxicidade, segundo o levantamento do Ipea.

Após a nova Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023), o registro de novos defensivos químicos aumentou. Em 2024, foram 663 liberações de novos produtos, superando os 555 registrados em 2023.

Dados do Ministério da Saúde, divulgados pela ONG Repórter Brasil, informam que entre 2015 e 2025, foram registrados 73.391 casos de intoxicação por agrotóxicos no país, sendo 9.729 apenas no ano passado.