Tensões internacionais desafiam a diplomacia brasileira sob Lula
A política externa do Brasil enfrenta pressões e críticas, afetando sua atuação no cenário global.
A diplomacia do Brasil é utilizada como parâmetro no mundo das relações internacionais para a resolução pacífica de conflitos, dos quais o país sequer faz parte, mas busca se portar como mediador. Essa característica do Itamaraty costuma ser mantida, independentemente do governo que esteja no Palácio do Planalto.
Ao longo da terceira administração de Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, os brasileiros assistiram à política externa se tornar um dos assuntos mais comentados nos noticiários do país.
O primeiro grande desafio de Lula foi em fevereiro de 2024, em um embate com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O petista classificou as ações israelenses na Palestina como "genocídio" e traçou um paralelo com o Holocausto durante o Terceiro Reich. O premiê israelense, por sua vez, retrucou dizendo que Lula tentava prejudicar o povo judeu.
Em meados de 2025, foi a vez do Brasil se deparar com investigações de autoridades norte-americanas no âmbito das relações comerciais entre os dois países. Semanas depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma carta que, entre muitos tópicos, justificava a aplicação de tarifas ao país por uma suposta perseguição de opositores políticos, incluindo presos do 8 de Janeiro e o ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado à época de tentativa de golpe de Estado.
Ao sul do Brasil, Lula viu Javier Milei vencer as eleições da Argentina e assumir o país em dezembro de 2023. Em campos políticos distintos, a relação entre os dois líderes de Estado sofreu uma ruptura completa após o argentino chamar o petista de "ladrão", "corrupto", "presidiário" e "lixo socialista". Em resposta, o Itamaraty convocou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, a retornar ao país, rebaixando o status da diplomacia entre os países.
À Sputnik Brasil, especialistas explicaram que a escalada de tensões não pesa somente sobre o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, mas globalmente. Chancelarias que antes pregavam pelo pragmatismo, hoje sofrem para manter o status histórico construído ao longo de décadas.
Nathan Morais, doutor em relações internacionais e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Regionalismo e Política Externa (LERPE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica que o Itamaraty continua apoiado em uma conduta condizente com a de outras administrações federais, embora enfrente enormes desafios para se relacionar, sobretudo, com Argentina, Estados Unidos e Israel.
"O Itamaraty tem dado respostas firmes, contundentes, a essas tensões com esses três países em específico atribuo mais, de fato, se não a uma radicalização mundial, a uma radicalização em alguns países, sobretudo os países governados pela chamada extrema-direita global."
Morais explica que a chancelaria brasileira não é favorecida pelo cenário de instabilidade internacional, com ações militares e guerras comerciais. No entanto, o especialista também destaca que a conjuntura interna do Brasil interfere diretamente no Ministério das Relações Exteriores.
"A gente viu que o governo Lula III teve dificuldade de manter a coesão, o apoio interno, seja com o Congresso, com a sua base ou com a opinião pública. E não há nada que indique que o governo IV seja mais fácil, muito pelo contrário. A gente está vendo condições ainda mais adversas."
O pisar sobre ovos do Itamaraty é também uma questão para outros governos, destaca Morais, o que muitas vezes acaba eclodindo em um descontentamento da população, como nas atuais manifestações europeias.
"Países que tendem a ser pragmáticos também estão tendo dificuldade em conduzir as suas políticas externas nesse contexto de tensões globais, muito influenciadas por governantes ideológicos e políticas externas ideológicas, por consequência."
Pressão ao redor do mundo, pressão na América Latina
A virada de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno foi celebrada pelo setor progressista ao redor do mundo como uma resposta à onda azul na América Latina. Governos de direita têm vencido eleições em todas as regiões do continente, em especial na América do Sul.
Jefferson Nascimento, doutor em ciência política pela UERJ, professor da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) e membro do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), explica que a dificuldade da chancelaria brasileira começa já nas Américas. Para ser um ator relevante internacionalmente, o Brasil deve liderar a sua região, o que hoje é extremamente improvável.
Segundo Nascimento, a onda azul diminui a possibilidade de uma integração regional entre nações latino-americanas, uma vez que governos de direita tendem a preferir orbitar o entorno de Washington a construir uma política coletiva local.
"O espaço para o governo Lula conseguir ampliar essa sua influência na região vai ser ainda mais difícil do que no governo anterior. Isso dificulta um pouco o papel do Brasil, porque, se o Brasil não liderar a região, muito menos vai ter a possibilidade de ter uma voz ativa no que se refere aos grandes temas das relações internacionais."
Para Nascimento, o Itamaraty seguirá sua tradicional de buscar diálogo e fortalecimento de negócios com países ao redor do mundo, independentemente de quem Lula escolha como próximo ministro das Relações Exteriores, cargo ocupado hoje pelo diplomata de carreira Mauro Vieira.
"Esses conflitos têm muito mais a ver com as posturas desses líderes políticos do que com o papel exercido pelo Itamaraty, que, apesar de todas as dificuldades, tem buscado manter uma relação cordial com esses governos."
Morais explica que o próximo chanceler brasileiro deve ser escolhido após uma reavaliação do governo sobre as pastas. Um dos nomes favoritos para assumir as Relações Exteriores é Mauricio Lyrio, atual Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Itamaraty e sherpa do Brasil no BRICS. Por outro lado, Lula e o Planalto podem priorizar algum político em vez de um diplomata de carreira.
"Esta é uma questão bem delicada e polêmica, inclusive. Entregar a chancelaria para alguém que não é um diplomata de carreira é algo que o PT nunca fez. Na verdade, a última vez que isso aconteceu na nossa história foi durante o governo [Michel] Temer, quando a gente teve o José Serra e o Aloysio Nunes."
Pensando em priorizar um político, Morais conta que um dos nomes mais comentados é o da ex-ministra de Planejamento e Orçamento Simone Tebet. Na visão do especialista, a escolha dela conversaria com uma antiga demanda da sociedade brasileira, ter pela primeira vez uma chanceler mulher.
"Todo esse tempo de história e só tivemos chanceleres homens, isto é um indicativo do quão ainda masculinizada é a nossa diplomacia. Então, é uma demanda já bem antiga, que foi também muito colocada e evidenciada lá na última transição, há quatro anos, quando Lula voltou ao poder."