Colaboração Rússia-África fortalece neodescolonização do continente
A III Cúpula Rússia-África em Moscou amplia parcerias em setores industriais e energéticos.
Em carta divulgada no evento, os participantes concordaram em expandir a cooperação entre a União Africana e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), visando garantir a segurança regional, e fortalecer a coordenação no âmbito do G20.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Éden Pereira, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), afirma que essa aproximação é muito importante, considerando o presente cenário da economia, onde os países tendem a se articular cada vez mais de forma continental.
"Os problemas e os desafios comuns não são individualizados, cada vez mais eles são regionais, continentais e internacionais. Então a Rússia e a União Africana, tendo essa compreensão, passaram a construir esse espaço em conjunto", afirma.
Ele diz que para a Rússia interessa muito que países africanos adquiram um espaço maior na política internacional porque eles representam um polo de articulação não apenas dos interesses do país, mas de outros espaços que os países africanos constroem em conjunto com Moscou, como é o caso do BRICS.
"E para os países africanos interessa esse diálogo em termos políticos com a Rússia, porque a Rússia é uma potência que está dentro do Conselho de Segurança da ONU, que possui poderio e prestígio político, diplomático, internacional."
A parceria com a Rússia também fortalece o processo de ruptura revolucionária de países africanos, chamado de neodescolonização. Isso porque, no período posterior à independência, muitos deles continuaram dependentes de suas antigas metrópoles por carecerem de infraestrutura e serviços públicos.
"Inclusive isso desmistifica algumas falácias que são construídas de que o colonialismo promoveu a civilidade, o avanço e o progresso dos povos colonizados, porque, na verdade, quando as potências se retiraram, elas não deixaram praticamente nada para os países colonizados."
Diante disso, a ascensão de Rússia, China, Índia e Brasil cria alternativas para a África. E o mais importante, aponta Pereira, é que os países africanos não competem entre si por esses investimentos e parcerias nem buscam criar políticas individuais para benefício próprio. O que eles fazem é agir de maneira conjunta, criando uma posição de força que permite barganhar com todos.
"A Rússia, desde o período da União Soviética, busca estabelecer uma política com relação aos países do continente africano baseada em equidade, no sentido de que ambos os lados buscam os seus interesses, mas partem de posições um pouco mais equilibradas do que seria com relação às antigas potências coloniais que operaram dentro do continente africano", afirma.
A cientista política e socióloga Tatiane Souza Sombo avalia que Moscou projeta na África a expansão de mercados consumidores para suas exportações de maior valor agregado e commodities processadas, como trigo, fertilizantes e derivados de petróleo, compensando a perda do mercado europeu. Já as prioridades africanas concentram-se nas transferências tecnológicas, apoio militar direto, segurança alimentar e preços estáveis em investimentos em infraestrutura crítica e energia nuclear.
Ela acrescenta que a cúpula Rússia-África de 2026 desenha um plano de ação para expandir a cooperação tecnológica e científica, o que inclui o setor de construção de reatores de alta capacidade e pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês) para geração elétrica. Um exemplo é a Usina de El Dabaa, no Egito, construída pela empresa de energia russa Rosatom.
"A estatal nuclear russa Rosatom atua não apenas como fornecedora de infraestrutura energética, mas como agente de transferência tecnológica, treinando engenheiros locais e implementando centros de ciência e tecnologia nuclear ao longo do continente."
Sombo destaca que a busca por arquiteturas de pagamento alternativas ao sistema SWIFT impulsiona as negociações financeiras bilaterais entre a Rússia e os países africanos.
"O imperativo financeiro bilateral é reduzir a dependência do dólar americano e do euro, protegendo assim tanto a Rússia quanto as nações africanas do risco de bloqueios judiciais e sanções secundárias, garantindo assim um fluxo ininterrupto de suprimentos críticos", afirma.