ECONOMIA

Taxas de juros em alta devido a riscos fiscais elevados

Expectativa de manutenção da Selic cresce com incertezas na equipe econômica do novo governo.

Por Arícia Martins Publicado em 30/10/2026 às 18:20
Taxas de juros em alta devido a riscos fiscais elevados Reprodução

Depois da reprecificação histórica ocorrida nos juros futuros como reação ao resultado das eleições presidenciais, a recomposição de prêmios persistiu nesta sexta-feira, 30. As taxas se firmaram em alta nos trechos mais distantes da curva, refletindo o compasso de espera por sinalizações que não vieram, como nomes que irão compor a equipe econômica do novo governo Lula e a apresentação de medidas fiscais.

Já na ponta curta, a percepção de aumento de riscos inflacionários tornou majoritárias as apostas de manutenção da Selic.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 subiu de 14,368%, no ajuste anterior, a 14,485%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 14,935%, vindo de 14,805% no ajuste, e o DI para janeiro de 2031 anotou alta a 15,210%, de 15,155%.

A curva a termo termina outubro em nível bem mais inclinado. Frente ao fechamento de setembro, enquanto vértices curtos praticamente não se moveram, a taxa para janeiro de 2029 saltou cerca de 120 pontos-base, e a para janeiro de 2031, 130 pontos. A maior parte da correção foi concentrada nesta semana, sobretudo na segunda-feira, quando o mercado teve de ajustar posições para incorporar a inesperada reeleição de Lula nos cenários.

Segundo o economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz, é difícil que o ganho de inclinação da curva seja atenuado sem que o governo sinalize como irá compensar medidas e promessas com impacto fiscal feitas durante o período eleitoral. Em seus cálculos, se implementadas, elas adicionariam entre R$ 60 bilhões e R$ 80 bilhões aos gastos públicos em 2027. "Temos um ponto de partida pior da eleição e, sem anúncios, é natural que seja precificado um risco fiscal muito maior", disse.

Em sua visão, levando em conta as indicações dadas durante a campanha e o discurso pós-eleição, a estratégia a ser adotada pelo governo deve ser de um ajuste mais gradual e implementado em etapas. "Assim, o mercado deve seguir pressionando por mais tempo, especialmente na ponta longa", avalia.

Kautz observa que o mercado abriu nesta sexta com a expectativa de que o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), assumiria o Ministério da Fazenda, após notícias de que o presidente programou uma viagem ao Estado na próxima semana para convidá-lo pessoalmente. Ao longo do dia, porém, declarações de Fonteles de que não sabe da viagem e não tem tido conversas sobre o tema esfriaram esse sentimento.

Para William Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, Lula fez pouco para tranquilizar os mercados no pós-eleição, com a discussão de uma meta de resultado primário um pouco mais ambiciosa para 2027, que carece de detalhes, e sem indicações de quem será o ministro da Fazenda.

Já no curto prazo, aponta Jackson, "riscos fiscais maiores e o impacto inflacionário da queda do real provavelmente manterão o Comitê de Política Monetária fora de cena nas duas últimas reuniões do ano. Antes, cortes de 25 pontos-base nessas reuniões pareciam prováveis."

No fim desta tarde, a precificação da curva de juros futuros apontava 80% de probabilidade de manutenção da Selic nos atuais 13,75% na reunião da próxima semana do Copom, ante 20% de chance de corte de 0,25 ponto porcentual. Para os dois encontros seguintes, de dezembro e janeiro, a curva embute 17 pontos-base e 31 pontos-base de alta, pela ordem.

Em relatório de quinta, o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, informa que passou a projetar estabilidade para o juro básico na próxima quarta-feira, ante previsão anterior de corte de 25 pontos. A perspectiva para dezembro, que já era de pausa no ciclo de baixa, foi mantida. A revisão, segundo Secemski, foi motivada por "um aumento significativo dos riscos inflacionários".