Ibovespa registra pior desempenho semanal em seis anos
O índice acumulou queda de 18,12% na semana, impactado por incertezas fiscais e ambiente externo desfavorável.
O Ibovespa encerrou a semana sob forte pressão, em um movimento que combinou a reprecificação dos ativos após as eleições, piora das expectativas para os juros e o quadro fiscal no Brasil e um ambiente externo de maior aversão ao risco. A correção ganhou força com a desmontagem de posições construídas antes do segundo turno, com a redução do apetite por ativos brasileiros.
No fim dos negócios, o Ibovespa até chegou a se afastar da mínima do dia em 167.007,57 pontos, mas não se sustentou nos 168 mil pontos e encerrou em queda de 0,75%, aos 167.921,80 pontos. Na semana, o índice acumulou queda de 18,12%, maior baixa desde março de 2020, quando cedeu 18,88%. No mês, o Ibovespa teve baixa acumulada de 9,88%, pior desempenho desde junho de 2022, quando caiu 11,5%. A expressiva desvalorização das ações já levou o índice a devolver boa parte dos ganhos do ano, agora em 4,22%. O giro da sessão foi de R$ 31 bilhões.
O sócio-cofundador e head de renda variável da Lince Investimentos, Lucas Castro, avalia que o mercado ainda busca um novo ponto de equilíbrio diante da incerteza sobre a política econômica brasileira a partir do ano que vem.
"O mercado brasileiro segue pressionado pelos reflexos do resultado das eleições, que provocou uma forte reprecificação dos ativos diante das incertezas sobre a condução da política econômica e fiscal", afirma. "Esse movimento é agravado pelo desmonte de posições de investidores que apostavam em uma vitória da oposição, provocando saída de recursos e mudanças nas expectativas para a trajetória dos juros."
A economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, Bruna Centeno, afirma que a pressão doméstica encontrou um exterior também desfavorável, com petróleo em alta, preocupações renovadas com a inflação e juros globalmente e cautela com ações de tecnologia, após balanços decepcionantes, como se viu no caso da Amazon e da Intel. O petróleo Brent já é negociado na casa dos US$ 113 o barril, com avanço de 15,7% no mês.
O economista e head de renda variável da Fami Capital, Gustavo Bertotti, também vê o cenário fiscal como condição para uma estabilização mais consistente dos ativos. "O que o mercado vai cobrar, independentemente de quem assumisse o País, é um plano crível para a questão fiscal. Enquanto isso não vier, acredito que o prêmio de risco continuará elevado", afirma.
Na avaliação de Bertotti, novembro ainda deve exigir cautela, sobretudo em empresas mais sensíveis ao custo do dinheiro. Para ele, se a curva de juros se mantiver nos níveis atuais, empresas cíclicas e mais endividadas tendem a continuar sofrendo. "O mercado deve se voltar para ativos mais defensivos, empresas com fundamentos sólidos, previsibilidade de receita e, em alguns casos, receitas atreladas ao dólar", descreve.
O gestor de portfólio do Banco Sofisa, Rafael Pastorello, destaca que o ambiente internacional também reduziu o apetite por risco ao longo da semana. Apesar da manutenção das taxas de juros nos Estados Unidos, na zona do euro e no Japão, afirma ele, os bancos centrais reforçaram preocupações com os impactos da guerra no Oriente Médio e seus potenciais efeitos inflacionários.