Brasil deve aprender com o modelo de desenvolvimento da China, afirma especialista
Diego Pautasso analisa as transformações chinesas e sugere que o Brasil siga lições práticas em tecnologia e indústria.
Desde sistemas de inteligência artificial, chips, de infraestrutura de computação, energia,
À produção de baterias, trens de alta velocidade, satélites, o gigante asiático não cessa de surpreender quando o assunto é velocidade em inovação.
O podcast da Sputnik Mundioka ouviu o autor dos livros A China e a Nova Rota da Seda e Quem Tem Medo da China, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Diego Pautasso, e Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China.
Co-criador do projeto Fios da China nas redes sociais e, Pautasso, avaliou que a China foi subestimada no contexto geopolítico mundial.
Ao lembrar que a partir dos anos 1980, o país recebeu multinacionais ocidentais que se utilizaram da grande oferta de mão de obra barata, o estudioso destacou que paralelamente o regime chinês mobilizou políticas industriais, comerciais e tecnológicas que internalizaram a cadeia produtiva, tecnologias e agregando valor a sua produção, com qualificação da mão de obra e mobilidade social.
“É exatamente esse processo, ao longo dos últimos 30, 40 anos, que fez a China sair de uma produção de baixo valor agregado, de produtos simples e primários, anos 90, era um grande exportador de petróleo ainda no início, para se transformar no país hoje que lidera a fronteira tecnológica”, disse ele.
Para ele o "grande pulo do gato da China" foi criar uma trajetória nova no mercado automobilístico, com investimento em carros elétricos, tornando-a líder nesse mercado.
“Um modelo que é muito bem sucedido, porque eles dominam das terras raras, passando pelas baterias, ímãs e chegam até os veículos elétricos. E com isso eles conseguem, em um só movimento, fazer uma transição na sua mobilidade, por uma mobilidade elétrica e mais limpa, e ao mesmo tempo dominar todo o circuito tecnológico relacionado aos carros elétricos.”
Capacidade de coordenação e investimentos públicos robustos possibilitaram que o país, que tinha 80% da população vivendo no campo há 40 anos, superasse o processo de imitação e réplica de tecnologias estrangeiras para aperfeiçoá-las e criar produtos competitivos. Pautasso ponderou:
"Aqueles que achavam que se tratava simplesmente de pirataria ou de bugigangas, logo virou a China liderar a inovação em várias áreas. Agora estamos vendo muito a questão dos automóveis, dos smartphones, produtos eletroeletrônicos em gera [...] E, nesse sentido, o papel do planejamento público, do investimento, da visão de longo prazo, do investimento em inovação, ciência e tecnologia cumpriram um papel articulado nesse projeto de desenvolvimento nacional."
O sucesso chinês, no entanto, é difícil de ser replicado, advertiu Pautasso, pois demanda um governo que não é refém das leis do mercado, tem soberania tecnológica e consegue concluir políticas industriais, comerciais e tecnológicas de longo prazo.
"Isso, obviamente, passa pela capacidade tecnológica que também garante soberania em outras esferas. Hoje em dia a gente poderia chamar ou tratar da soberania da tecnologia digital, por exemplo, que é um dos gargalos hoje aos quais muitos países são submetidos, no caso do Brasil, inclusive, com forte influência sobre a eleição", avaliou o especialista, ao citar a ingerência das big techs no país na esfera, sobretudo, política e comunicacional.
Ele citou como exemplo a tentativa frustrada dos EUA de tentar boicotar a produção de semicondutores chineses:
“O tiro saiu pela culatra, porque por ser uma economia grande, com capacidade de planejamento, de investimento público, de realização de compras governamentais, que já possuía ecossistema de empresas de inovação muito forte, um país que forma grande quantidade de engenheiros técnicos e especialistas nessa área, acabou por precipitar o desenvolvimento chinês na área de semicondutores”, opinou. “Porque, no final das contas, os Estados Unidos tinham uma maior dependência de produtos críticos da China do que a China de produtos críticos dos Estados Unidos”.
As estratégias de boicote ao crescimento chinês favoreceram a diversificação do comércio da China, principalmente, em direção ao sul global, na opinião do analista.
Mais recentemente, o país asiático também revelou o avanço vertiginoso no setor de defesa com produção de mísseis hipersônicos, drones, veículos não tripulados, entre outras armas de alta tecnologia, bem como modernização das forças armadas.
Com isso, a China criou alternativas sistêmicas no campo econômico, no campo comercial, no campo tecnológico e no campo da governança ao domínio do Atlântico Norte, opinou o Pautasso.
“Relações que obviamente podem ser atravessadas por contradições e assimetrias, mas que não são baseadas ou não têm sido baseadas na mesma lógica imperial e do recurso à força.”
“A China não tem interesse em alterar substantivamente as regras do jogo, a não ser no sentido de criar um mecanismo, uma governança mais efetiva, mais participativa, com maior representação do Sul Global [...] ela não vê essa ampliação como uma ameaça, mas como uma potencialização da sua capacidade de liderança.”
Brasil como exemplo
Segundo Pautasso, quando a China ainda tinha um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da média mundial e enfrentava sério problemas sociais e econômicos, na década de 1980, o Brasil era exemplo de país com o maior crescimento industrial no hemisfério sul em ritmo acelerado.
“A China extraiu lições da experiência brasileira, que obviamente também estava atravessada por contradições, mas era um processo bastante virtuoso de conversão de um país agrário num país industrializado de nível médio”, observou ele.
Agora, cabe ao Brasil extrair as lições do processo de desenvolvimento chinês, defendeu o entrevistado.
“Cabe ao Brasil também se debruçar um pouco sobre a experiência chinesa [...], estudando as melhores práticas para que a gente também possa iluminar um pouco os desafios que temos pela frente.”
Ele ressaltou que a cooperação sino-brasileira com transferência de tecnologia avançou em alguns setores importantes, e destacou o da saúde:
“A gente tem o SUS [Sistema Único de Saúde], que garante grande quantidade de compras governamentais. O Brasil se viu fragilizado no seu complexo industrial da saúde. E essa é uma fronteira que a gente pode, a um só tempo, reindustrializar e, ao mesmo tempo, estabelecer cooperação, transferência tecnológica, joint ventures, inclusive aprender com as lições da China.”
Ele também citou os setores ferroviário, rodoviário e metroviário, em que a China teria muito a contribuir e fortalecer em parcerias de transferência de tecnologia.