CONFLITO

Crise no Iêmen e Arábia Saudita: Como pode afetar o mundo?

Aumentam os confrontos no Iêmen, enquanto Arábia Saudita busca reforçar sua segurança com apoio militar.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 30/10/2026 às 11:00
Crise no Iêmen intensifica tensões com a Arábia Saudita, impactando cenários globais. © AP Photo / Osamah Abdulrahman

Nesse contexto de crescente hostilidade no Oriente Médio, um confronto de escala aparentemente regional entre Sanaa e Riad pode ter desdobramentos internacionais. Essa é a perspectiva apresentada por Rafael Firme, mestrando em estudos estratégicos internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA).

"Uma guerra naquela região, onde fica o estreito de Bab al-Mandeb, tem impacto econômico direto, em razão das rotas comerciais. Então, de pronto, a gente pode inferir já esse desgaste econômico. Em âmbito local, por mais que seja uma guerra direta entre a Arábia Saudita e os houthis, o desdobramento na economia internacional é imediato e é duríssimo", disse.

Outro ponto levantado pelo especialista é o acionamento do Acordo de Meca, firmado entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia. Esse movimento pode sinalizar a entrada de atores extrarregionais no cenário atual, embora as diretrizes práticas para a execução dessa cooperação militar coletiva ainda não estejam totalmente claras.

"A gente tem o pacto de Meca ativado, então a inserção de Turquia e Paquistão nessa região com tropas, a Turquia ainda numa posição meio dúbia, mas com o pacto de Meca ativado, a gente tem o Egito tentando atravessar, ou ao menos se mostrar disponível a essa coalizão, se colocar de prontidão para participar dessas intervenções no Iêmen", destacou.

Europa não consegue mediar os confrontos da região

A despeito do apoio do Reino Unido e da França aos esforços sauditas, justificado pela dependência europeia do petróleo daquele país, Firme pondera que a Europa enfrenta um cenário de convulsão social em membros importantes do bloco. Na atual conjuntura, os países europeus demonstram incapacidade para intermediar conflitos fora de suas fronteiras, como ocorre no Oriente Médio.

"Sigo entendendo, inferindo que a Europa, a Alemanha, a França, a Inglaterra vivem crises existenciais, síndromes de grandeza, tentando se inserir, tentando solucionar questões que eles não conseguem mais. E é muito duro para uma ex-grande potência entender que já não é mais uma grande potência", destacou.

O analista internacional enfatiza que, embora alguns países europeus possuam capacidades militares de dissuasão estratégica, como armas nucleares, esse fator é insuficiente para resolver crises extrarregionais. Essa limitação torna-se ainda mais evidente diante das severas instabilidades internas enfrentadas no próprio continente europeu.

"Por mais que tenham capacidades nucleares, por mais que tenham economias pujantes, esses países precisam se reencontrar, precisam entender o momento que estão vivendo. Então, Inglaterra e França, Alemanha, com problemas no seu continente, com problemas na sua região, querem resolver os problemas do Oriente Médio. É algo que não vai funcionar", observou.

Impasse entre sauditas e houthis continua complexo

O pesquisador Rafael Firme também aborda em sua análise que o conflito entre os países possui contornos de diversas camadas. A Arábia Saudita precisa do estreito de Bab al-Mandeb para escoar sua produção petrolífera, já que o estreito de Ormuz segue fechado pelo Irã, enquanto os houthis buscam garantir a soberania de sua região.

"A Arábia Saudita tenta manter o seu fluxo de petróleo passando por Bab al-Mandeb. Para isso, precisa negociar com os houthis, e para eles é uma guerra existencial. É uma guerra existencial total. Se perderem, eles vão ser dizimados. Vão ficar sem quórum político e vão ficar sem qualquer tipo de negociação diplomática, ao passo em que a Arábia Saudita securitiza a sua fronteira, porque para ela é um problema central", conclui.

Na geopolítica contemporânea, os confrontos regionais não significam que uma crise permanecerá isolada em determinada área. Em um mundo crescentemente globalizado e com economias interdependentes, dinâmicas locais rapidamente ganham escala global, afetando cadeias de suprimentos e mercados internacionais.