Resultado das eleições israelenses evidencia divisão em torno de Netanyahu
Partido de Netanyahu, Likud, conquista 53 cadeiras, enquanto partidos árabes obtêm votação histórica, abrindo espaço para negociações.
Netanyahu não foi derrotado, mas tampouco venceu. Com o resultado das urnas, o bloco liderado pelo Likud, que reúne o partido e seus aliados, ficou com 53 cadeiras no Knesset (parlamento israelense), bem abaixo das 61 necessárias para governar. Antes da eleição, o grupo tinha 64. A queda de onze cadeiras é a marca do pleito, e o premiê deve permanecer no cargo de forma interina enquanto as negociações seguem.
Em entrevistas ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, as professoras Karina Calandrin, do Ibmec, e Denilde Holzhacker, da ESPM, explicam que o eleitorado israelense está fragmentado e o desgaste de Netanyahu é real. Além disso, existe um núcleo duro de apoio que resiste à guerra em Gaza, às críticas sobre as falhas de segurança de 7 de outubro e à crise econômica, o que pode favorecer o ex-general Gadi Eisenkot, principal adversário de Netanyahu.
Eisenkot lidera um bloco que conquistou 48 cadeiras. As pesquisas indicavam que a oposição chegaria à maioria, o que não se confirmou. Segundo Calandrin, Eisenkot é a grande liderança anti-Netanyahu, mas o resultado ficou aquém do esperado.
Ambas as analistas ressaltam que a diferença entre os dois não está tanto no conteúdo: "É tudo direita, só que é direita pró-Netanyahu ou direita anti-Netanyahu", reforça a professora do Ibmec.
Eisenkot tem perfil militar, defende uma postura dura em segurança, apoia a manutenção de uma zona de segurança desmilitarizada no sul do Líbano e considera o Irã o principal inimigo de Israel. A distinção é que Eisenkot não é Netanyahu e não está aliado a extremistas nem a ultraortodoxos, o que muda a composição de um eventual governo.
Segundo as professoras, o ex-general também tem trunfos próprios. Como foi um militar, isso lhe dá legitimidade para criticar a condução da guerra, além de gerar apoio de uma parte do eleitorado que tem afeição por votar em militares. O oposicionista também perdeu um filho em Gaza, o que reforçou seu apelo entre famílias que perderam parentes no conflito.
Calandrin lembra ainda que ele poderia se tornar o primeiro premiê israelense de origem mizrahi, ou seja, de família judaica do Oriente Médio, e não europeia.
Partidos árabes têm votação histórica
Os principais adversários não alcançaram maioria e, para tê-la, terão que negociar com a principal surpresa das eleições: o desempenho dos partidos árabes, que somaram 19 cadeiras, superando o recorde anterior, de 15. Calandrin explica que a participação foi estimulada por um movimento de protesto: após eleições anteriores marcadas por desilusão, os eleitores árabes decidiram votar. Também pesou, segundo Holzhacker, a preocupação com o avanço de grupos de extrema-direita sobre os direitos dos árabes israelenses.
A professora da ESPM avalia que esse bloco pode assumir o papel de fiel da balança, historicamente exercido pelos partidos ultraortodoxos. A negociação deve girar em torno de assentamentos, ocupação, direitos e segurança, o que também preocupa a população árabe no dia a dia.
"Os partidos árabes que ganharam, sim, muita força, principalmente na discussão sobre a política de Israel, na política externa, mas é principalmente na preocupação sobre o avanço de grupos israelenses e judeus de extrema-direita que têm atingido cada vez mais os direitos dos árabes israelenses, o que fez com que se tivesse uma plataforma maior de crescimento", diz Holzhacker.
Ao todo, quatro partidos compõem o bloco árabe. A Lista Árabe Conjunta, formada por três partidos, defende o fim da ocupação e dos assentamentos e a criação de um Estado palestino. Já o Ra'am, que concorre sozinho e já integrou um governo, tem foco na melhoria de vida dos árabes israelenses, diferencia Calandrin. Se houver aliança com algum partido árabe, a hipótese mais plausível é com o Ra'am. Eisenkot, porém, apresentou quatro exigências para uma parceria, e as duas especialistas ressaltam que ele depende dos árabes mais do que eles dependem dele.
Sistema fragmentado e um impasse provável
Com nenhum dos blocos perto da maioria, a formação do governo promete ser difícil. Holzhacker lembra que períodos de negociação são comuns em sistemas parlamentaristas, mas admite que há risco de novas eleições, o que manteria Netanyahu como chefe de governo provisório.
Calandrin, por sua vez, diz que ele deve usar todos os instrumentos disponíveis, inclusive, ao citar a mídia, a analista lembrou que o premiê ligou para líderes árabes para que não se aliem à oposição, não para conquistar o apoio deles, mas para forçar uma nova eleição.
"É um caminho possível se ninguém forma a coalizão, o próximo caminho são novas eleições daqui a alguns meses. Para ele é positivo, porque o governo dele se mantém como um governo provisório até as novas eleições", diz.
Na avaliação de Holzhacker, a sociedade israelense está dividida menos por temas como religião ou segurança, embora essas fraturas existam, e mais pelo apoio ou rejeição à figura de Netanyahu. Há consenso de que o Irã representa uma ameaça, mas cresce a desconfiança sobre se a decisão de entrar em guerra junto com os Estados Unidos foi motivada por segurança ou por cálculo pessoal do premiê.
Netanyahu enfrenta processos por corrupção em Israel e um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional. Para a professora da ESPM, as investigações mais amplas sobre as falhas de 7 de outubro de 2023 só avançarão de fato quando ele deixar o poder. Calandrin, por sua vez, não descarta que o premiê tente se instalar nos Estados Unidos, onde o filho mora e que não são signatários do Estatuto de Roma, embora trate o cenário como especulação.