CULTURA

Dia Nacional do Livro destaca queda na leitura e resiliência de novas gerações

Comemorado em 29 de outubro, o Dia Nacional do Livro resgata a importância da leitura em um panorama desafiador.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 29/10/2026 às 19:00
Dia Nacional do Livro: celebração e reflexão sobre o hábito de leitura no Brasil. © AP Photo / Flávia Villela

Mais de dois séculos depois, a instituição abriga cerca de 10 milhões de itens, consolidando-se como uma das principais guardiãs da memória do país.

A riqueza desse patrimônio histórico, no entanto, contrasta com um desafio persistente no Brasil: o enfraquecimento do hábito de leitura. Dados do Instituto Pró-Livro revelam uma realidade preocupante: 53% da população não leu sequer um livro nos três meses em 2025, índice que vem registrando alta nos últimos anos.

A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, coordenada pelo instituto, revelou que o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em um intervalo de quatro anos, fazendo com que o percentual total de leitores caísse de 56% para 47%.

Pela primeira vez na série histórica do levantamento, os não-leitores tornaram-se maioria (53%), sendo que apenas 27% da população declarou ter lido livros inteiros no período de três meses.

Entre os principais obstáculos apontados pelos entrevistados para justificar a falta de leitura estão falta de tempo (46%), a preferência pelo uso da internet (81%), desinteresse por livros (29%) e o fato de as mulheres liderarem o hábito nacional.

No entanto, o cenário entre as prateleiras mostra sinais pontuais de reação, impulsionados sobretudo pelo público jovem. De acordo com a Câmara Brasileira do Livro (CBL), 18% dos adultos brasileiros compraram ao menos um livro em 2025, um avanço em relação aos 16% registrados no período anterior.

Embora continue sendo uma minoria, a alta representa uma adição de 3 milhões de novos compradores em apenas 12 meses.

O resgate da pausa e da transformação

Para quem cultiva a prática, a leitura vai além da busca por conhecimento: é uma ferramenta de desaceleração e transformação pessoal. Frequentadora da Biblioteca Nacional para pesquisas acadêmicas, a estudante de direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduarda Albino Servilha, conta que sua trajetória acadêmica foi moldada ainda na infância por meio da literatura.

"Hoje faço direito, porque aprendi a amar ler, amar o que leio e me transportar para outra existência. O primeiro livro que li foi aos 12 anos e tive essa sensação de que podia fugir um pouco da minha realidade, viver e sentir diferentes universos", relata a estudante.

A busca por um momento de desconexão da rotina digital também atrai visitantes ao prédio histórico na região central do Rio. A produtora de eventos paulista Amanda Soares aproveitou a viagem à cidade para conhecer a Biblioteca Nacional. À Sputnik Brasil, ela defende a importância de trocar as telas pelo papel.

"Com o acesso constante à internet e ao celular, voltar para um livro e pausar aquele momento pela nossa calma é essencial; é um tempo só nosso", observa Amanda. "No metrô, por exemplo, está todo mundo no celular. Quando você pega um livro para ler, às vezes inspira e dá vontade no outro de fazer o mesmo."

Tecnologia, clubes de leitura e cidadania

O avanço dos leitores digitais e a popularização dos clubes de leitura indicam novos caminhos para a formação do público no país. Para acompanhar essas transformações, a própria Biblioteca Nacional vem ampliando sua presença virtual, registrando mais de 100 milhões de acessos anuais em seu acervo digitalizado.

Para o presidente da Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, há um movimento conjunto de renovação cultural no país.

"Os clubes de leitura têm liderado essa grande renovação. Acreditamos que existe hoje uma capacidade de interesse, curiosidade e leitura muito grande", pontua Lucchesi. "Existe uma convergência de fatores, não apenas do Estado, mas da sociedade brasileira, de aspirar a melhores condições e sonhar com o futuro através do livro."

Lucchesi reforça ainda o papel social das bibliotecas como instrumento de democratização do saber e de empatia, citando como exemplo o impacto da literatura no sistema prisional.

"Um país precisa de bibliotecas, porque elas representam um grande bastião da democracia e formam o leitor. Como costumo mostrar quando trabalho com detentos nas prisões, a leitura é o lugar em que nos colocamos no lugar do outro — um exercício de alteridade que jamais imaginaríamos praticar em tantos sujeitos."

Metas para a próxima década

Para consolidar essa tendência de retomada e expandir o acesso, o novo Plano Nacional do Livro e Leitura, lançado em abril, estabelece diretrizes estratégicas para o setor.

A meta do programa é elevar o percentual de leitores no Brasil para 55% nos próximos dez anos, por meio de iniciativas voltadas à redução do custo final das obras e à universalização do acesso a acervos públicos e comunitários.