EDUCAÇÃO

Maria Aparecida publica seu primeiro livro aos 52 anos

A estudante da Educação de Jovens e Adultos destaca a importância do incentivo à leitura na rede pública de Maceió.

Por Prefeitura de Maceió Publicado em 29/10/2026 às 11:56
Maria Aparecida, aos 52 anos, publica seu primeiro livro, na Escola Municipal Nise da Silveira, em Maceió. Alisson Frazão/ Secom Maceió

Aos 52 anos, Maria Aparecida Rodrigues da Silva realizou um sonho que carregava desde a infância: escrever o próprio livro. Estudante da Escola Municipal Nise da Silveira, em Maceió, ela encontrou na volta aos estudos, por meio da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (Ejai), a confiança para transformar suas reflexões em literatura.

Sua história ganha destaque no dia 29 de outubro, quando é celebrado o Dia Nacional do Livro, e mostra como o incentivo à leitura e à escrita pode abrir novos caminhos e revelar talentos em qualquer fase da vida.

Maria Aparecida Rodrigues da Silva, autora do livro Sem Última Página. Foto: Alisson Frazão/ Secom Maceió
Maria Aparecida Rodrigues da Silva, autora do livro Sem Última Página. Foto: Alisson Frazão/ Secom Maceió

Na Rede Municipal de Ensino de Maceió, o incentivo à leitura faz parte de iniciativas que visam aproximar os estudantes dos livros, estimular a criatividade e despertar o interesse pela produção literária.

Por meio de projetos, atividades culturais e ações desenvolvidas nas escolas, a proposta é fazer com que jovens, adultos e idosos não apenas conheçam novas histórias, mas também reconheçam que podem escrever e compartilhar as próprias experiências.

Leitura que transforma

Para a professora, escritora e assessora pedagógica da Coordenação Técnica de Educação de Jovens, Adultos e Idosos (CTEJAI), Marijôse Albuquerque Costa, a leitura é essencial para o desenvolvimento humano, pois ampla conhecimentos, estimula a imaginação e contribui para a formação de pessoas mais conscientes e participativas.

Na rede pública municipal, esse trabalho é desenvolvido em parceria com as escolas e outros setores da Secretaria Municipal de Educação (Semed), incluindo iniciativas voltadas à biblioteca, à arte e à cultura. Entre elas está o projeto “ValeR a Pena”, que distribui kits com quatro livros de diferentes gêneros literários para os estudantes, incentivando a formação de acervos pessoais e familiares. As 40 escolas municipais que oferecem a Ejai participaram da iniciativa, com entrega dos kits aos estudantes.

Marijôse Albuquerque Costa, professora, escritora e assessora pedagógica da Coordenação Técnica de Educação de Jovens, Adultos e Idosos (CTEJAI). Foto: Alisson Frazão/Secom Maceió
Marijôse Albuquerque Costa, professora, escritora e assessora pedagógica da Coordenação Técnica de Educação de Jovens, Adultos e Idosos (CTEJAI). Foto: Alisson Frazão/Secom Maceió

O trabalho também envolve atividades culturais, como peças teatrais, saraus literários, rodas de conversa e visitas ao teatro. As escolas contam ainda com bibliotecas ou salas de leitura, onde os estudantes podem ler por prazer, pesquisar e pegar livros emprestados.

A intenção é fazer da literatura uma experiência presente no cotidiano escolar, capaz de despertar interesses e incentivar novas formas de expressão. “A leitura incendeia a alma!”, afirma Marijôse, ao destacar a importância de estimular os estudantes a reconhecerem o valor de suas próprias histórias.

“O estímulo nosso ao processo literário é que os estudantes sejam construtores e pertencentes das suas histórias e dos seus territórios”, explica a assessora pedagógica.

Um sonho que ganhou páginas

Antes de se tornar autora, Maria Aparecida precisou vencer inseguranças que a acompanharam durante muitos anos. Ela começou a estudar por volta dos oito anos, mas deixou a escola na adolescência, entre os 14 e 15 anos, por enfrentar dificuldades no aprendizado. Apesar de sempre desejar voltar a estudar, acreditava que talvez fosse tarde para recomeçar.

A mudança começou em 2025, quando uma amiga, Cida Duarte, de 60 anos, que estudava na Ejaida Escola Municipal Nise da Silveira, a incentivou a retomar os estudos. O apoio da amiga e o incentivo dos filhos ajudaram Maria Aparecida a dar o primeiro passo.

Ao voltar para a sala de aula, ela passou a se sentir mais confiante e capaz de enfrentar as dificuldades. A rotina de estudos trouxe novos objetivos e a fez perceber que ainda poderia realizar sonhos que havia deixado para trás. “A Ejai foi a luz que reacendeu meus sonhos esquecidos e me deu a clareza para perceber do que eu era capaz”, conta.

A ideia de transformar suas reflexões em um livro ganhou força durante um projeto escolar sobre a escritora Cora Coralina. Na ocasião, Maria Aparecida escreveu um poema que chamou a atenção da professora e da coordenadora Eliete Cavalcante, que reconheceram seu potencial e a incentivaram a continuar escrevendo.

A escrita, que já fazia parte de sua rotina como uma forma de organizar pensamentos e sentimentos, passou a representar também a possibilidade de realizar um antigo desejo. Ela guardava os textos que produzia no dia a dia até perceber que poderia reuni-los em uma publicação.

Assim nasceu “Sem última página: um livro sobre o que não termina”, obra composta por reflexões sobre a vida, os sentimentos, as dúvidas e as experiências cotidianas. Inspirados em sua própria trajetória, os textos revelam o olhar da autora sobre os acontecimentos e os aprendizados que fazem parte da existência.

A coragem de acreditar em si mesma

O processo de transformar os escritos em livro também trouxe desafios. Sem um computador próprio, Maria Aparecida realizou grande parte da edição pelo celular, utilizando aplicativos para organizar os textos e revisar a pontuação. Ela também contou com orientações das professoras Katilane e Luna. Depois, o filho ajudou a organizar o arquivo no computador para atender aos requisitos técnicos necessários à publicação.

Mesmo diante das dificuldades, ela decidiu seguir em frente. Antes de publicar a obra, chegou a enviar alguns textos para a coordenadora Eliete, sem revelar que pretendia reuni-los em um livro. Ao receber uma avaliação positiva, sentiu-se ainda mais encorajada a acreditar em sua capacidade.

Quando finalmente viu o livro pronto, a palavra que resumiu seu sentimento foi “orgulhosa”. Para ela, a publicação representa muito mais do que a realização de um sonho de infância: é a prova de que pode superar suas inseguranças e conquistar novos objetivos.

O apoio dos filhos, da nora, da coordenadora Eliete, da diretora Lucrécia e dos professores também teve um significado especial nessa trajetória. Agora, Maria Aparecida deseja continuar escrevendo e transformar novas ideias em outras obras.

Nunca é tarde para recomeçar

A história da estudante reforça a importância da Ejai como oportunidade para quem deseja retomar os estudos, ampliar conhecimentos e descobrir novas possibilidades. Além da aprendizagem em sala de aula, a experiência pode contribuir para o fortalecimento da autoestima e para a construção de novos projetos de vida.

Ao lembrar de sua trajetória, Maria Aparecida deixa uma mensagem para quem ainda tem receio de voltar à escola: “Não deixe o tempo dizer até onde você pode ir! A sua idade não é um limite, é a sua força. Voltar a estudar é reescrever a sua própria história, resgatar a sua dignidade e provar para o mundo que nunca é tarde para realizar um sonho. Dê esse passo por você: volte para a escola, matricule-se na Ejai e venha descobrir do que você é capaz!”

No Dia Nacional do Livro, a experiência da autora mostra que a leitura e a escrita podem ir além das páginas: podem despertar sonhos, fortalecer a confiança e ajudar cada pessoa a reconhecer o próprio potencial.

Aos 52 anos, Maria Aparecida não apenas realizou o desejo de escrever um livro, mas também abriu espaço para novas histórias que ainda pretende contar.