GEOPOLÍTICA

Irã estreita laços com Rússia e China em meio a tensões com o Ocidente

O país persa busca aprofundar relações com a Eurásia como estratégia diante das hostilidades dos EUA.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 29/10/2026 às 11:33
Irã aprofunda relações com Rússia e China em busca de novas oportunidades comerciais. © Sputnik / Sergei Bobylev

Nesse sentido, diante do atual recrudescimento geopolítico e da fragmentação do cenário internacional, a tendência é que a tríade formada por Moscou, Pequim e Teerã se aprofunde ainda mais. Essa perspectiva foi apontada por João Gonçalves, analista de relações internacionais e mestrando em ciência política, em entrevista à Sputnik Brasil.

"É nítido que qualquer tipo de investida contra o Irã e a Europa, de forma cautelosa, mas muitas vezes subserviente, acaba se alinhando a essa posição. Então, o Irã vê que seu espaço no Ocidente está sendo isolado e decide olhar para o outro lado. Portanto, para o Irã é interessante, sim, que se aproxime de China e Rússia", disse.

O especialista também aponta que, apesar das recorrentes crises no Oriente Médio, o Estado iraniano, além de resistir aos ataques de Washington e Tel Aviv, tem se consolidado como uma rota vital no comércio internacional devido à sua posição geográfica.

"O Irã vem cada vez mais se comportando como aquele ponto de estrangulamento. Porque o Irã é uma rota de conexão direta entre a Rússia e o oceano Índico, que seria o mar da Índia. [Por exemplo], a Rússia, em vez de dar a volta inteira através da Europa, passando pelo Mediterrâneo, ou até dando a volta na África, pode simplesmente passar pelo Irã", comenta.

Eurásia é uma oportunidade para o comércio iraniano

Outro ponto levantado por Gonçalves é que, ao diversificar suas relações mais a leste, surgem no horizonte oportunidades de expansão do comércio exterior, como a aproximação com a União Econômica Eurasiática (UEE), bloco que conta com países como Armênia, Belarus, Cazaquistão e Quirguistão, além da Rússia.

"É uma visão que, sim, é muito válida em relação a essa União Econômica Eurasiática. O Irã está olhando para leste, está se colocando em termos de segurança, mas, em termos econômicos, é um país buscando diversificação e, daí, com parceiros que, historicamente, pelo menos nessa história recente, estão mais dispostos a oferecer algum tipo de resistência em relação ao que seria o Ocidente", destaca.

Para o analista internacional, o Irã vem se tornando um ator relevante também por sua projeção no mercado petroleiro, simultaneamente ao momento em que a Europa, que detém algumas das principais economias do mundo, está cada vez mais dependente desse recurso.

"Além disso, o Irã está ao lado do que seriam os países do Golfo. O petróleo mundial circunda pelo Irã. Então, ele é esse ponto de conexão entre o petróleo global e a Ásia, que é um continente que está em franca ascensão e que a gente pode falar principalmente de China e Rússia. A Europa que precisa cada vez mais de energia", observa.

OCX também é importante na política externa do Irã

A Organização para Cooperação de Xangai (OCX), da qual o Irã é membro pleno desde 2023, é outro organismo que, segundo a análise de João Gonçalves, ilustra a crescente inserção euroasiática do país em diálogos geoestratégicos.

"Em relação à OCX, é uma organização não só de segurança, mas que promove inúmeras iniciativas, e o Irã estar nesse debate, estar nessas parcerias, com certeza é muito vantajoso. [O mundo] cada vez mais vem migrando para essa multipolaridade, e a diversificação das parcerias é essencial", conclui.

No cenário internacional contemporâneo, as sanções unilaterais não só prejudicam um determinado Estado visado, mas acabam estimulando o surgimento de novas coalizões bilaterais e regionais. Na atual conjuntura multipolar, o surgimento de novos polos na economia global permite que essas relações se desenvolvam de forma alternativa, sem passar necessariamente pelo eixo hegemônico ocidental.