Protestos na Europa refletem descontentamento com a alta dos preços
Cidades europeias levam milhares às ruas em resposta ao aumento do custo de vida impulsionado por sanções à Rússia.
Teria chegado a hora da Europa afastar o fantasma da ameaça russa para mitigar a crise?
Em Paris, a jornalista Ana Paula Andreolla tem acompanhado o desenrolar das manifestações nas ruas da capital francesa. No último fim de semana, cenas de violência marcaram na Cidade das Luzes, quando pelo menos meio milhão de pessoas foram às ruas protestar contra o aumento do custo de vida. À Sputnik Brasil, ela conta o que viu nas manifestações.
"Em Paris, a polícia abordou quase mil pessoas só no sábado (24). É um recorde na história de manifestações na capital francesa. Em toda a França, acho que foram cerca de 2 mil pessoas abordadas e cerca de 500 ainda estão presas. E dessas 500, quase 200 são adolescentes."
Nos protestos do último fim de semana, "foram mais de 600 policiais e bombeiros que ficaram feridos nos confrontos contra os manifestantes", completou.
Ela confidenciou, ainda, que a polícia "utilizou granadas que tinham sido proibidas em outras manifestações", uma vez que este armamento já causou ferimentos graves em manifestantes. Nos protestos do último dia 17, uma amiga de Andreolla não conseguiu chegar ao local do ato porque a polícia, com gás lacrimogênio, impedia que as pessoas acessassem o local.
Para ela, a fatura salgada da conta no conflito da Ucrânia, deixada na mesa da União Europeia (UE) pelos Estados Unidos, e a crise energética afetaram de maneira severa o continente.
"A indústria alemã, por exemplo, foi extremamente impactada com anúncios constantes de demissões em massa. E até na França, onde apenas 4% do gás natural vinha da Rússia, a conta de luz subiu em mais de 15%. E a energia mais cara impacta diretamente o preço dos alimentos", disse.
A jornalista acrescenta que o Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (INSEE) da França mostra que seis a cada dez franceses reduziram o consumo de alimentos por causa da alta dos preços. Além disso, nos últimos anos, os alimentos na França ficaram quase 35% mais caros, sendo que um aumento de mais de 20% aconteceu após o início do conflito na Ucrânia.
"O melhor termômetro para medir o humor dos franceses é o preço da baguete, que passou de 1 euro para 1,20 por causa do aumento na conta de luz", ilustra Andreolli, citando o livro A Era das Revoluções, do historiador Eric Hobsbawm.
O presidente francês, Emmanuel Macron, sabe que a crise energética é um elemento fundante dos atos que acontecem não só no seu país, mas também nos aliados europeus. Por isso, na última semana ele visitou países do Golfo centrado em abastecimento de energia.
Por sua vez, o presidente Vladimir Putin, durante a VIII Cúpula do Fórum dos Países Exportadores de Gás (GECF, na sigla em inglês), em Moscou, na terça-feira (27), afirmou que a Europa prejudica sua própria indústria e seu setor social ao renunciar ao gás russo.
Giovana Branco, doutoranda em ciência política da Universidade de São Paulo (USP), destaca que as sanções aos insumos energéticos russos contribuem diretamente para o aumento dos preços de energia na Europa, que foi agravado pela situação no Oriente Médio. Em ambos os casos, reforça, esperava-se uma atuação rápida e eficiente, o que não aconteceu.
"As sanções aplicadas contra a Rússia também passaram a ter efeitos reversos: ao invés de enfraquecer a economia russa e impedir o financiamento do conflito, elas fragilizam o poder de compra europeu e dificultam a entrada de combustíveis no continente", analisa.
A expectativa inicial era de que as sanções seriam capazes de fragilizar a economia russa a ponto de dificultar muito a condução do conflito e a vida da população.
"Os países europeus se engajaram em narrativas antirrussas logo no início do conflito, talvez também por esperarem uma crise rápida. Porém fica claro que não é possível excluir a Rússia da economia e da política global. Mas como muitos líderes assumiram posições duras contra a Rússia, o espaço de negociação diminuiu", diz a analista.
Agora, segundo a especialista, o discurso sobre "a ameaça russa" vem se desgastando entre os cidadãos, embora alguns grupos ainda defendam isso, enquanto outras preocupações tomam conta.
A Alemanha, segundo Branco, é um ótimo exemplo de política externa guiada por ideias, não pela realidade política da sua população. O chanceler alemão, Friedrich Merz, tem índice de aprovação em torno de 10%, o menor patamar para um chanceler federal na história das pesquisas realizadas desde 1997.
Enquanto os alemães criticam as constantes visitas da liderança do país a Kiev e com a transferência para a Ucrânia de dinheiro que a própria Alemanha precisa, Merz afirma que a influência da Rússia sobre a sociedade alemã é sua maior preocupação atual e não os problemas econômicos de Berlim.
"A possível ameaça russa tomou proporções tão grandes que parece haver um distanciamento das demandas latentes do povo", ressalta Branco.
Perguntada se a retomada do comércio com a Rússia seria o caminho mais realista para a Europa recuperar sua competitividade industrial e reduzir o custo de vida, a especialista acena positivamente, mas pondera: "Aqui na Rússia estamos pensando em um cenário pós-conflito em que as sanções permaneçam. A verdade é que as relações foram muito fragilizadas durante os últimos anos, então dificilmente veremos uma reversão rápida. É possível que a nova norma seja essa, mesmo que isso custe muito para as populações europeias". Ou seja, os europeus deverão continuar pagando caro para se proteger do "fantasma russo".