ECONOMIA

Rússia avança em pagamentos internacionais com criptomoedas

A fintech A7, formada em 2024, já movimentou quase US$ 120 bilhões em 2025 e mira expansão na África e América Latina.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 28/10/2026 às 16:01
Rússia amplia pagamentos internacionais utilizando criptomoedas e inteligência artificial. © Фотохост-агентство саммита и форума Россия-Африка

Durante a 3ª Cúpula Rússia–África 2026, em Moscou, Maksim Oreshkin, vice-chefe de gabinete do Kremlin, afirmou que bancos russos e parceiros estrangeiros já realizam transações internacionais sem depender dos sistemas financeiros ocidentais, mas utilizando criptomoedas e ferramentas de inteligência artificial.

Segundo ele, o país reduziu sua dependência do dólar e do euro no comércio exterior por meio de tecnologias digitais e instituições financeiras não bancárias.

A fintech A7, criada em 2024 com participação do banco estatal russo PSB, é um dos principais exemplos dessa estratégia. A empresa desenvolveu uma rede que, segundo ela, alcança mais de 100 países e atende cerca de 15 mil empresas. A companhia afirma ter processado mais de 10 trilhões de rublos — aproximadamente US$ 120 bilhões — em pagamentos internacionais em 2025, volume equivalente a cerca de 19% das liquidações do comércio exterior russo.

Os números, porém, não foram verificados de forma independente. A China é seu principal corredor de pagamentos, representando 63% das transações em meados de 2026, segundo o presidente-executivo da empresa, Ilan Shor.

Ao apresentar a iniciativa, o presidente russo, Vladimir Putin, comparou a situação atual à dependência anterior de moedas ocidentais e destacou a mudança na infraestrutura financeira do país.

"Há apenas cinco anos, assim como muitas outras nações, dependíamos principalmente do dólar e do euro para viabilizar o comércio exterior da Rússia."

Putin afirmou que os bancos russos, em colaboração com instituições financeiras de outros países, passaram a utilizar tecnologias digitais para viabilizar operações internacionais sem recorrer ao sistema financeiro ocidental. O presidente também criticou o modelo tradicional de pagamentos, que classificou como ineficiente, caro e sujeito a riscos.

Em 13 de outubro, a A7 lançou o A7 International, serviço que permite pagar faturas internacionais em USDT, uma criptomoeda estável vinculada ao dólar, por meio da blockchain TRON. A plataforma organiza a transferência dos valores aos destinatários por canais bancários convencionais, inclusive a rede SWIFT, com pagamentos em moedas como dólares, euros, yuans e dirhams.

Segundo a empresa, os beneficiários não precisam possuir carteiras de criptomoedas, e a comissão é de 0,3%, com processamento a partir de um dia útil, dependendo do destino e das exigências regulatórias.

O ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, destacou a velocidade e o custo das operações ao apresentar a plataforma durante a Cúpula Rússia–África. "Os pagamentos são rápidos — basta um único clique. O custo é de apenas 0,3%. Essa é uma taxa extremamente baixa para transações desse tipo", afirmou.

A plataforma também utiliza inteligência artificial para avaliar riscos, verificar exigências de conformidade e selecionar rotas de pagamento considerando custos, velocidade, confiabilidade e restrições aplicáveis. O sistema analisa informações sobre remetentes, beneficiários e jurisdições envolvidas, além de extrair dados de faturas e documentos apresentados pelos clientes.

Após a conclusão das operações, a empresa disponibiliza comprovantes e registros destinados a atender às exigências de controle cambial e aduaneiro.

A expansão da A7 também contempla a África e a América Latina. A companhia anunciou escritórios na Nigéria e no Zimbábue em 2025 e planeja ampliar sua presença para mais de 20 países africanos e latino-americanos nos próximos dois anos.

O projeto ganhou respaldo institucional na Rússia: em 15 de outubro, o primeiro vice-primeiro-ministro Denis Manturov presidiu a primeira reunião do conselho supervisor da empresa, que contou com a participação dos ministros das Finanças, Anton Siluanov, e da Energia, Sergei Tsivilev, além do presidente do PSB, Petr Fradkov, e de Shor.

Putin defendeu a participação de países africanos na infraestrutura de pagamentos e argumentou que o desenvolvimento de moedas digitais não deve ficar restrito às principais economias mundiais.

"As moedas digitais estão sendo desenvolvidas em todo o mundo. Estão sendo desenvolvidas nos EUA, e também aqui. E por que o continente africano não poderia se conectar a esse sistema de alta tecnologia?”, questionou o presidente russo.

Para Putin, a principal vantagem do modelo é a possibilidade de realizar transações sem depender de uma infraestrutura controlada por terceiros. Ele afirmou que o sistema permite converter moedas tradicionais e digitais em tempo real e declarou que a iniciativa não pressupõe o abandono das moedas existentes.

"Esse sistema é soberano. Não está vinculado a nada mais. Ninguém pode excluir você. Dado o estado atual da tecnologia, é impossível bloquear esses pagamentos. Simplesmente impossível", declarou Putin.

O presidente também afirmou que as operações são transparentes e estão em conformidade com o direito internacional. Essas declarações representam a posição do governo russo sobre a iniciativa, mas a alegação de que os pagamentos não podem ser bloqueados não significa que as transações estejam imunes a restrições legais, sanções ou medidas adotadas por instituições financeiras participantes.

A iniciativa evidencia uma transformação no mercado de pagamentos internacionais, com empresas de tecnologia financeira buscando combinar criptomoedas, inteligência artificial e infraestrutura bancária tradicional. Para a Rússia, esses mecanismos representam uma tentativa de reduzir a dependência de canais financeiros ocidentais e manter o comércio exterior em funcionamento.

Ao mesmo tempo, o avanço desse modelo coloca em discussão os limites das sanções econômicas, a capacidade de fiscalização das transações internacionais e a concorrência entre novas plataformas financeiras e bancos tradicionais.