POLÍTICA

Encontro entre EUA e Rússia sinaliza mudança na dinâmica da guerra na Ucrânia

Especialista analisa impacto das recentes declarações de Trump sobre a relação entre EUA e Europa.

Por Sputnik Brasil Publicado em 21/10/2026 às 17:10
Putin e Witkoff discutem caminhos para solucionar a crise na Ucrânia em reunião em São Petersburgo. © AP Photo / Omar Havana

Especialista aponta uma aproximação lógica entre Rússia e Estados Unidos diante de uma "guerra perdida" pela Ucrânia. Fim do conflito pode ser o primeiro passo para estancar a crise social na Europa.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, reuniu-se nesta quarta-feira (21) com o enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, em São Petersburgo. O encontro, sobretudo, abordou o conflito na Ucrânia e caminhos para a sua respectiva solução.

Conforme divulgado pelo assessor de Putin, Yuri Ushakov, o presidente russo apresentou a Witkoff a situação objetiva na linha de combate, destacando que as Forças Armadas da Rússia controlam as iniciativas em campo. O enviado norte-americano, por sua vez, valorizou a iniciativa de Moscou em retomar as negociações trilaterais (Rússia, EUA, Ucrânia) para o fim da operação militar especial.

O encontro também foi usado por Putin e Witkoff para aprofundar conversas sobre possíveis investimentos de grande escala entre Rússia e Estados Unidos, destacou Ushakov.

A reunião em São Petersburgo acontece após uma série de declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, acerca da falta de vontade do ucraniano Vladimir Zelensky em encontrar uma solução para o fim do conflito. O republicano também chegou a declarar que a Ucrânia deveria ter um novo líder.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Ricardo Cabral, professor, doutor em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dono do canal Geopolítica e História Militar, sinalizou que os Estados Unidos se aproximam da Rússia ao mesmo passo que se afastam da Europa, em um movimento iniciado no começo desta década. No entendimento do especialista, a administração Trump "quebrou a unidade ocidental".

"A chegada de Trump muda a equação. Como são os Estados Unidos primeiro, vamos fazer aquilo que nos interessa. Primeiro, vamos parar de investir em uma guerra perdida. Isso está perdido."

Para Cabral, Washington compreendeu que não faz sentido virar as costas a Moscou, como a União Europeia e o Reino Unido têm tentado fazer desde 2022. Enquanto russos encontraram maneiras de continuar seu intercâmbio comercial com países do Sul Global, a Europa Ocidental entrou em uma crise capitaneada por sanções, financiamento militar da Ucrânia e aumento dos gastos de defesa.

"Grande parte da crise econômica europeia advém das sanções, do bloqueio à compra e ao financiamento de energia dos russos, do acesso ao mercado de commodities russo, ao próprio mercado consumidor, e isso, de certa forma, prejudicou muito mais a economia europeia do que a russa."

Na visão do especialista, por mais que a Rússia esteja disposta a chegar a um acordo e os Estados Unidos a mediá-lo, a Ucrânia não se sentará à mesa com disposição para conversar enquanto tiver apoio do tripé Alemanha, França e Reino Unido. A população europeia e a oposição política de muitos países do bloco, no entanto, já perceberam que o antagonismo aos russos não os levará a lugar algum.

"A questão que se coloca é: quando os países da Europa fizerem uma transição de governo, vão voltar a se aproximar da Rússia e ter posições mais realistas do que simplesmente essa de um antagonismo pelo antagonismo. Não tem sentido. Não tem como a Alemanha se recuperar em termos de potencial industrial sem a energia barata oferecida pelos russos, por exemplo."

Primeiro a Ucrânia, depois a Europa

Cabral entende que a aproximação de Rússia e Estados Unidos pode ser benéfica não somente para negociar o fim do conflito na Ucrânia, mas também para o arrefecimento da escalada contínua de tensão provocada pelo aumento de gastos militares do bloco europeu por meio dos Estados-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

O especialista ressalta que a aliança militar expandiu a presença de arsenal estratégico ao redor da Rússia, em um mesmo período em que também aumentou o número de membros próximos à fronteira russa com a adição de Finlândia (2023) e Suécia (2024).

O analista também acredita que a Europa tenta recuperar o gap tecnológico aberto por países como a China a partir de investimentos e desenvolvimento da indústria de defesa. Na visão de Cabral, essa percepção europeia é "problemática" e cabe aos Estados Unidos, muitas vezes, conter o ânimo do lado ocidental do continente contra a Rússia.

"Em vários momentos dessa história da OTAN, os europeus atuavam para, vamos dizer assim, acalmar os Estados Unidos. Foi assim em duas ou três ocasiões na história, durante a Guerra Fria. E agora me parece ao contrário, me parece, pelo menos na administração Trump e na anterior, que os americanos estão apaziguando os europeus em relação às 'ameaças russas'. É paradoxal."