SAÚDE

Alerta de pediatras sobre brinquedos com inteligência artificial

Sociedade Brasileira de Pediatria emite recomendações sobre riscos do uso dessa tecnologia pelas crianças.

Por Agência Brasil Publicado em 21/10/2026 às 11:48
Pediatras alertam para os riscos de brinquedos com inteligência artificial para crianças.

Brinquedos que conversam com as crianças e que são capazes de memorizar suas preferências exigem atenção especial de pais e responsáveis. Com o avanço da inteligência artificial (IA), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um alerta sobre a escolha e o acompanhamento do uso desse tipo de produto junto a crianças e adolescentes.

A nota enfatiza que o objetivo do alerta é minimizar os riscos da exposição inadequada. Os sistemas de IA generativa, por exemplo, são capazes de reconhecer voz e imagem, recordar informações, adaptar respostas e manter conversas que não são totalmente pré-programadas.

Segundo a SBP, o tema é considerado urgente. Em setembro de 2026, ganhou destaque o anúncio do Museu Charm, um dispositivo portátil da Meta, comparado pela imprensa a um Tamagotchi com IA. Embora não seja um brinquedo destinado a crianças, ilustra como a IA começa a assumir formas físicas e personalizadas.

Emoções

O alerta ressalta que, apesar da linguagem afetiva utilizada pela IA, ela não é uma pessoa. Um brinquedo conectado pode contar com microfone, câmera e acesso completo à internet, além de coletar dados e oferecer personalização.

Um estudo publicado na revista Pediatrics indica que as crianças podem desenvolver percepções erradas da IA como amiga ou cuidadora a partir do contato com esses brinquedos. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também já alertou para os AI companions: brinquedos que incentivam conversas e relacionamentos com crianças e adolescentes.

“Apesar da aparência inofensiva, esses sistemas de IA podem coletar informações e impactar negativamente a saúde mental dos jovens”, afirmou a entidade.

A SBP sugere que a preocupação deve ser tanto sobre o que o brinquedo faz, quanto sobre o seu funcionamento, quais informações coleta, como esses dados são utilizados e se existem mecanismos de proteção adequados.

Recomendações

No alerta, a SBP recomenda cautela ao oferecer brinquedos com IA, especialmente aqueles que utilizam IA generativa, coletam dados pessoais ou simulam amizade e apoio emocional. “Quando essas funções não trazem benefícios claros, ou são pouco transparentes em seu funcionamento, o ideal é optar por produtos sem tais recursos”, alertou.

Há também a preocupação com os impactos à saúde mental e comportamental dessas novas interações, que ainda não estão completamente mapeados.

O alerta sugere que as famílias reflitam sobre questões importantes antes de adquirir um desses produtos, como:

  • 1. O que essa tecnologia acrescenta à brincadeira?
  • 2. A criança participa ativamente ou o brinquedo faz quase tudo por ela?
  • 3. Como o produto funciona (se usa IA generativa e se possui câmera, microfone ou conexão com a internet)?
  • 4. A indicação etária e a supervisão parental estão claras?
  • 5. O que acontece com os dados da criança e do adolescente?
  • 6. O uso do brinquedo com IA expõe a criança a ações de perfilamento, publicidade, compras ou assinaturas associadas?
  • 7. Como a interação é apresentada: o produto simula amizade, afeto, cuidado ou apoio emocional?
  • 8. A criança entenderá, conforme a idade, que está interagindo com uma IA e não com uma pessoa?
  • 9. Qual lugar essa experiência ocupa na rotina, em relação ao sono, ao movimento, à brincadeira livre, à leitura, ao contato com a natureza e à convivência familiar?

A SBP destaca a importância de que informações essenciais estejam acessíveis, como se o produto contém câmera ou microfone, se precisa de internet, quais dados registra e para qual finalidade, onde são armazenados, se são compartilhados com terceiros, se é possível apagá-los e quais recursos vêm ativados por padrão.

“Se essas informações não estiverem disponíveis, a recomendação é não comprar e optar por outros produtos ou brinquedos.”

Fabricantes

Outro ponto importante no documento é que fornecedores e empresas devem informar pais, responsáveis, crianças e adolescentes sobre os riscos e medidas de segurança, incluindo privacidade e proteção de dados.

Em caso de coleta de dados não informada, conteúdo inadequado, falhas de segurança ou dificuldades em exercer direitos, a SBP orienta que as famílias:

  • peçam ao fornecedor informações, correção ou eliminação dos dados da criança;
  • desistam, em até sete dias do recebimento de compras feitas fora de estabelecimento comercial;
  • utilizem canais de notificação do fornecedor;
  • reclamem no Procon, no consumidor.gov.br e na Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).