AMAZÔNIA

Queimadas aumentam em propriedades privadas no Amazonas após eleições, indica INPE

79,1% dos focos registrados entre 1º e 15 de outubro ocorreram em áreas rurais privadas, com origem humana apontada.

Por Sputnik Brasil Publicado em 21/10/2026 às 05:40
Queimadas no Amazonas crescem em áreas privadas após o primeiro turno das eleições, conforme o INPE. © AP Photo / Eraldo Peres

Levantamento do INPE mostra que 79,1% dos 1.639 focos de calor registrados no Amazonas entre 1º e 15 de outubro ocorreram em propriedades rurais privadas. Em meio à seca agravada pelo El Niño, órgãos ambientais apontam origem humana e criminosa para as queimadas, que voltaram a disparar após o primeiro turno das eleições.

O Amazonas enfrenta uma crise de incêndios que vem sufocando cidades, incluindo Manaus. Levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), feito a pedido de um portal de notícias brasileiro, mostra que 79,1% dos 1.639 focos de calor registrados no estado entre 1º e 15 de outubro ocorreram dentro de imóveis rurais privados com Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Os dados reforçam a avaliação de órgãos ambientais e de investigação de que os incêndios têm origem majoritariamente humana e caráter criminoso. O uso do fogo para manejo do solo depende de autorização específica do governo estadual, e desde 9 de setembro a prática está proibida no Amazonas. Mesmo assim, os focos continuaram avançando.

A situação ocorre em meio à seca agravada pelo fenômeno El Niño, que favorece a propagação das chamas pela vegetação ressecada. Segundo o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jair Schmitt, a estiagem cria condições propícias para os incêndios se espalharem, mas o início do fogo decorre da ação humana, aproveitando-se justamente da vulnerabilidade ambiental do momento.

As investigações já mobilizam Ibama, Polícia Federal (PF), Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e Polícia Civil do Amazonas. Segundo a apuração, em operações de fiscalização, agentes encontraram garrafas com combustível lançadas ao longo de estradas. Desde a semana anterior ao levantamento, o Ibama aplicou R$ 2 milhões em multas, enquanto a Polícia Civil instaurou mais de 120 procedimentos para apurar o uso criminoso do fogo.

Os incêndios ocorrem simultaneamente a uma queda recorde do desmatamento na Amazônia, o menor índice desde 1988 segundo o INPE. A aparente contradição se explica pelo fato de que a maior parte do fogo não atinge floresta preservada, mas áreas já desmatadas. Em outubro, 52,8% dos focos ocorreram em áreas abertas nos últimos três anos, 30,6% em áreas desmatadas há mais tempo e apenas 15,9% em vegetação nativa.

Entretanto, os especialistas consultados pela mídia destacam que desmatamento e queimadas são fenômenos diferentes, e que embora a derrubada da floresta tenha diminuído, áreas abertas anteriormente continuam sendo queimadas para limpeza do terreno ou renovação de pastagens. Segundo pesquisadores, o fogo integra um processo contínuo de ocupação e manutenção de áreas já degradadas.

Mesmo representando uma parcela menor dos registros, os focos que atingem vegetação nativa preocupam. Com a seca extrema, incêndios iniciados em propriedades rurais podem escapar ao controle e avançar por quilômetros, alcançando florestas, unidades protegidas e territórios indígenas uma vez que o déficit de chuvas na região tem agravado o cenário de seca, especialmente em Manaus.

O Ibama afirma ter autuado 19 pessoas em uma semana nos municípios de Autazes e Careiro da Várzea, na região metropolitana da capital. As multas somam R$ 2 milhões e mais de 250 hectares foram embargados. Segundo o órgão, muitos casos envolvem proprietários que iniciam queimadas sem autorização e acabam permitindo que as chamas avancem para áreas protegidas.

Mas, a mídia destaca que um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) aponta ainda uma mudança incomum no comportamento dos incêndios. Após seguirem o padrão sazonal até o fim de setembro, os focos voltaram a crescer rapidamente a partir de 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições.

Entre 4 e 14 de outubro, foram registrados 5.598 focos de calor, número 37 vezes superior ao observado no mesmo período do ano anterior e acima até dos níveis registrados durante a seca histórica de 2023. Para o Ibama, a causa da explosão ainda depende de investigação, mas relatos de campo indicam possível sensação de impunidade durante o período eleitoral.