ECONOMIA

Estudo da USP alerta sobre impacto da estagnação de auxílios em cidades

Pesquisa revela que benefícios sociais são fundamentais para a economia do interior do Brasil.

Por Agência Brasil Publicado em 16/10/2026 às 19:55
Estudo da USP revela impacto da estagnação de auxílios sociais nas economias locais.

A estagnação ou cortes nos benefícios sociais e previdenciários poderá severamente afetar a atividade econômica em municípios do interior do Brasil, segundo levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), divulgado esta semana.

O estudo aponta que aposentadorias, Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) têm um impacto significativo na economia dessas cidades, representando quase metade do orçamento das famílias mais pobres.

“Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, destaca a co-diretora do Made-USP, a economista Luiza Nassif.

Conforme o levantamento, dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades, o peso das transferências públicas chega a ser o dobro em comparação com os grandes centros urbanos.

No Ceará, os benefícios sociais e previdenciários correspondem a 22% da renda agregada da capital e região metropolitana, enquanto nas cidades do interior esse número chega a 40%.

Impactos futuros

O estudo do Made/USP estimou os efeitos econômicos da variação da renda dos benefícios sociais e previdenciários nas cidades do interior entre 2022 e 2025. A análise comparou um cenário de crescimento real dos BPCs e aposentadorias com o de reajustes ocorridos entre 2019 e 2022, períodos em que não houve ganhos reais do salário mínimo e congelamento total.

Os resultados indicam que, sem reajustes, a renda do interior do país poderia sofrer uma retração significativa, ficando entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar com valorização real dos benefícios sociais e previdenciários.

“Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”, avalia Nassif.

Os cenários mais críticos apresentariam perda de renda no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, com queda entre 17% e 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco teriam perdas em torno de 15%, enquanto Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia veriam quedas entre 10% e 13%.

Os efeitos na pobreza

O levantamento ressalta que, além do impacto sobre a renda e a atividade econômica dos municípios do interior, os benefícios desempenham um papel crucial no combate à pobreza.

“Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, adverte Nassif. Ela informa que para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios podem representar até 50% do rendimento.

Simulações indicam que a falta de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 poderia elevar em até 2,7 milhões o número de pessoas em situação de pobreza nos municípios fora das regiões metropolitanas, sendo 2,4 milhões delas em extrema pobreza.

As maiores altas na pobreza ocorreriam na Bahia (até 336 mil pessoas), seguida por São Paulo (até 263 mil) e Minas Gerais (até 251 mil), além de Maranhão, Pará e Ceará, onde mais de 200 mil pessoas enfrentariam a mesma situação.

“Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica claro o estrago que um bloqueio no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, conclui Nassif.

“Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, acrescenta.