Burkina Faso busca refinar ouro para fortalecer a economia nacional
Presidente Ibrahim Traoré promove iniciativa de refino, visando reduzir dependência externa e criar valor local.
A estratégia nacionalista de Ibrahim Traoré: o que significa para Burkina Faso refinar o próprio ouro ao invés de exportar a matéria-prima bruta?
"Seja ouro, manganês, cobre, zinco ou qualquer outro metal, nossa ambição já não é ser apenas um país que extrai recursos e envia matérias-primas para o exterior", declarou o presidente do país africano ao falar da RAFFINOR-BF, mineradora nacional inaugurada no fim de setembro.
De acordo com Sofonias Lopes Jó, pesquisador do grupo de estudos em Capacidade Estatal, Segurança e Defesa (Gecap) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a fala do líder burquinense faz alusão à obtenção de vantagem competitiva ao seu país com a iniciativa do refino.
A tendência, segundo o analista, é uma crescente entre os países africanos, que tentam promover agendas econômicas nacionalistas e se afastam, pontualmente, de relações predatórias com ex-colônias. No caso de Burkina Faso, um trabalho já vem ocorrendo por Traoré para se afastar da França.
"Alguns países já tiveram no século passado as refinarias, como o caso da África do Sul, e outros países estão tendo agora, como Burkina Faso. Só na costa ocidental, dentro da Confederação dos Estados de Sahel, já tem dois países que têm suas próprias refinarias e fazem isso internamente", explica.
No caso de Ouagadougou, o governo de Traoré busca implementar uma espécie de joint venture, ou seja, não deixar que empresas estrangeiras tenham o controle total de toda a cadeia de valor em termos do refino do ouro.
Burkina Faso é dona da quarta maior produção de ouro do continente africano. Segundo Zacarias Chambe, professor de História da África do Departamento de História da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), Traoré afirmou que a capacidade de processamento chegaria a mais ou menos 164 toneladas por ano na primeira fase das operações e se expandiria até 515 toneladas quando a empresa de refinaria estiver estabelecida.
Atualmente, segundo o analista, 94% da produção burquinense é exportada de forma bruta. Para descrever o momento atual, ele usa a frase atribuída ao ministro Yacouba Zabré: "nosso ouro não será mais usado para criar valor agregado para outros, enquanto o nosso povo permanece necessitado".
Como reverter lucro em políticas públicas?
Lopes Jó recorda que Traoré chegou ao governo prometendo retomar o controle de áreas perdidas por Burkina Faso para forças extremistas. O trabalho tem sido exitoso e o país apresenta projeção de crescimento econômico de 4% ao ano, conforme o entrevistado.
O refino interno também permite que a nação africana crie sua própria Reserva Nacional de Ouro e impulsione o crescimento não só regional, mas global de Ouagadougou.
Por outro lado, o professor da UFSM salienta que, embora o ouro represente um ativo expressivo em termos econômicos, não há como afirmar que a economia vai circular de forma mais ampla. Um dos problemas apontados é a ausência de Burkina Faso em blocos como a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDAO), embora negocie com países da Aliança dos Estados do Sahel (composta também por Níger e Mali).
Para reverter esse cenário, Chambe sugere que o país africano alargue a base produtiva e faça com que os recursos provenientes do ouro voltem para a agricultura e para a produção de tecnologia que dê suporte através de formação técnica local e capacitada a esses investimentos.
Atualmente, o país conta com parcerias importantes como China e Rússia, que investem internamente e ajudam que Burkina Faso obtenha tecnologia para a indústria de mineração. A partir daí, com investimentos em saúde, educação e agricultura, o professor da USP acredita que o país possa se desenvolver.
"Só assim é que pode-se garantir um valor agregado e que possa traduzir-se emprego."