POLÍTICA

Veto a partidos árabes pode criar novo impasse eleitoral em Israel

Líderes israelenses rejeitam alianças com a minoria árabe após eleições de 2026.

Por Estadao Conteudo Publicado em 16/10/2026 às 14:42
© AP Photo / Forças de Defesa de Israel

Mansour Abbas, líder do partido árabe Raam, busca se apresentar como uma opção "aceitável" na política israelense: condenou o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, evita focar seus discursos na guerra em Gaza ou na ocupação da Cisjordânia e prioriza questões locais, como o combate ao crime nas comunidades árabes. Em 2021, ele quebrou um tabu ao permitir a participação de um partido árabe em uma coalizão de governo em Israel, atuando como um aliado disciplinado. Atualmente, o segundo nome em sua lista é um candidato judeu de perfil mais popular.

Ainda assim, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seus principais rivais declararam que não formarão governo com Abbas nem com outros partidos liderados por árabes após as eleições de 27 de outubro de 2026 – mesmo que isso resulte em meses de paralisia e possivelmente uma nova eleição.

A situação reflete o momento vivido pela minoria árabe-palestina de Israel, que representa cerca de 20% da população: três anos após o ataque de 7 de outubro, seu espaço político e de expressão, segundo ativistas e grupos de direitos humanos, está se tornando mais restrito. A fala pública é rigorosamente vigiada, líderes foram rotulados como traidores e, em certos momentos, partidos chegaram a ser proibidos, embora uma decisão judicial tenha revertido essa proibição. Apesar disso, em uma disputa acirrada, os partidos árabes podem ter um papel potencialmente decisivo na escolha do próximo primeiro-ministro, devido à lógica de coalizões do sistema parlamentar israelense.

Yousef Jabareen, líder da Joint List (uma aliança de partidos árabes que adota uma linha menos conciliatória que a de Abbas), descreveu as eleições como "existenciais" e afirmou que a força eleitoral árabe deve ser utilizada para barrar uma deterioração ainda maior da situação. Ele participou de um pequeno evento de campanha em Tel-Aviv e deixou o local discretamente para evitar um grupo de manifestantes de extrema-direita.

Os palestinos que permaneceram dentro das fronteiras de Israel após a guerra de 1948 e seus descendentes têm cidadania e direito ao voto, mas laços familiares e solidariedade com os palestinos de Gaza e da Cisjordânia geram desconfiança em parte da população judaica. Além da discriminação, essas comunidades enfrentam altas taxas de criminalidade. Ativistas árabes atribuem o problema à negligência policial, enquanto a polícia aponta a falta de cooperação de líderes comunitários.

A taxa de homicídios entre os cidadãos palestinos de Israel é mais de 22 vezes maior que entre os judeus israelenses, enquanto as taxas de prisão e de denúncias formais são muito menores. A organização Abraham Initiatives, que defende a igualdade de direitos, contabilizou 184 mortes relacionadas a crimes em comunidades árabes em 2026 até agora e anunciou em julho que apenas 12% dos casos reportados no primeiro semestre haviam sido solucionados. Paralelamente, ativistas alegam que as autoridades restringiram agressivamente a liberdade de expressão, dissolvendo protestos contra a guerra, limitando a exibição de bandeiras palestinas e prendendo centenas de pessoas por publicações em redes sociais, de acordo com a ONG israelense Adalah.

O governo israelense, por outro lado, defende que Israel é um Estado judeu no qual as minorias têm direitos iguais e que parte das restrições a manifestações e falas se deve a preocupações de segurança.

Complicações eleitorais

Do ponto de vista eleitoral, como nenhum partido deve se aproximar de 61 das 120 cadeiras da Knesset, formar uma maioria no parlamento requer coalizões, o que pode conferir a partidos pequenos, como os árabes, um peso desproporcional. Na prática, porém, Netanyahu se nega a trabalhar com eles e os próprios partidos árabes também descartam a possibilidade de integrar um governo liderado por ele. O principal adversário de Netanyahu, o centrista e general da reserva Gadi Eisenkot, também afirma que não fará aliança com partidos árabes.

Até mesmo Yair Lapid, que liderou um governo de centro-esquerda em 2021, declarou à AP em maio que não pretende formar outra coalizão com o Raam. Diante dessas recusas, restam opções como mudanças de posição, um governo minoritário apoiado "por fora" por partidos árabes ou - se a aritmética parlamentar travar - a possibilidade de novas eleições, mantendo o governo atual como interino.