POLÍTICA

Movimentos separatistas ganham força no Canadá, alerta especialista

Análise destaca crescente pressão por autonomia em Quebec e Alberta diante da crise de coesão no país.

Por Sputnik Brasil Publicado em 15/10/2026 às 09:24
Movimentos separatistas no Canadá ganham destaque com referendos em Quebec e Alberta. © Sputnik / Vitaliy Belousov

A vitória do Parti Québécois reabriu o debate sobre a autonomia de Quebec. Para agravar o cenário, a província de Alberta, crítica a Ottawa e mais alinhada a Washington, realiza um referendo sobre independência em 18 de outubro. O avanço desses movimentos separatistas eleva a tensão e pode redefinir a política interna canadense.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, explica que os movimentos separatistas com postura crítica ao governo central de Ottawa não são recentes, mas históricos.

"No Canadá, tem um sentimento muito forte na província por autonomia. Então, esse sentimento de ser parte do Canadá e ter uma alta autonomia é muito forte. Mas o movimento separatista sempre esteve lá também, nesse processo", disse.

A analista internacional relembra que, durante o governo de Justin Trudeau, a relação com os movimentos separatistas e autonomistas foi conduzida de forma equilibrada. No entanto, após o acentuado declínio de popularidade que culminou em sua renúncia, essas correntes ganharam nova força.

"Trudeau foi muito capaz de lidar com essa percepção entre autonomia e separação. Depois do desgaste do governo dele, o movimento separatista cresceu no país, mas, olhando as pesquisas, existe um sentimento muito forte de afirmação identitária", comenta.

Quebec e Alberta: 'calcanhares de Aquiles' do Canadá

Holzhacker reforça que a província de Quebec, que integra a parte francesa do país, não se sente representada no Parlamento de Ottawa. Com isso, o desejo por mais autonomia cresce entre a população local, que busca defender sua identidade cultural e política.

"Hoje, o movimento em Quebec tem também a questão histórica, cultural, identitária, que é de autonomia, mas também tem uma outra discussão que é importante: eles não se sentem representados nas políticas que vêm sendo feitas, principalmente do ponto de vista econômico, das questões migratórias e das questões sociais", destaca.

Já Alberta, que integra a porção anglófona, é uma região rica em petróleo e busca maior integração com os Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, o objetivo local vai além da autonomia, focando na independência, impulsionada pelo referendo marcado para este mês.

"Há uma percepção crescente de que não é só a província de Quebec. A gente olha para Alberta, vai ter um referendo nesse mês para discutir a permanência ou não na federação. Então o Canadá hoje vive, de um lado, uma pressão americana, mas também um questionamento sobre a posição e sobre o governo federal. Então, acho que é também um momento interno de muita tensão", observa.

Ottawa precisa superar desafios para manter unidade

Outro ponto levantado por Denilde Holzhacker é que o crescimento e fortalecimento desses movimentos internos na política canadense refletem o enfraquecimento do Partido Liberal, do primeiro-ministro Mark Carney, que agora precisa superar profundos obstáculos para tentar manter a unidade nacional.

"[O cenário atual] é até uma crítica que os conservadores vêm fazendo ao governo de Mark Carney: de que isso reflete um desgaste do Partido Liberal, de que o governo dele não está conseguindo responder à pressão das federações. As províncias têm bastante autonomia, e a pressão entre as decisões do governo central e os interesses das províncias sempre foi uma dinâmica presente na política do Canadá", conclui.

Historicamente moldado pelo bilinguismo e por clivagens culturais entre francófonos e anglófonos, o Canadá enfrenta hoje uma grave crise de coesão interna. Enquanto Quebec revive o nacionalismo identitário, a dependência econômica de Alberta estimula o desejo de maior integração com os EUA. Esse duplo movimento fragmenta o país e desafia diretamente a autoridade de Ottawa.