Crise na OTAN: EUA se afastam da Europa e analisam futuro da aliança
A reunião restrita na Polônia reacende discussões sobre a relevância da OTAN no cenário atual.
Reunião na Polônia, liderada pelo subsecretário de Defesa dos EUA, Elbridge Colby, reuniu Alemanha, Finlândia, Suécia e Países Baixos. Derivado do Grupo de Bergen, o encontro não contou com a presença de França, Reino Unido e dos Bálticos. O formato restrito reacende o debate sobre a fragmentação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Nesse sentido, o pesquisador e professor de Relações Internacionais Ricardo Leães afirmou em entrevista à Sputnik Brasil que, no âmbito militar, Washington vem buscando se afastar da Europa, porque os custos despendidos na aliança atlântica já não fazem parte dos interesses norte-americanos atuais.
"Eu bato na tecla de que faz sentido para os Estados Unidos se desengajar da Europa, que eles não têm mais tanto a ganhar com a proteção dos países europeus. Porque [essa era] a grande preocupação dos EUA, no início da Guerra Fria. Só que, depois que acabou a União Soviética, não tem por que os Estados Unidos estarem protegendo esses países [europeus]."
Embora potências europeias como Paris e Londres não façam parte do Grupo de Bergen, assim como as nações bálticas da Estônia, Letônia e Lituânia, o não convite para participar da reunião na Polônia, em meio ao conflito na Ucrânia, indica, segundo o analista internacional, que os EUA tentam um rearranjo estratégico para tentar desescalar o conflito ucraniano.
"A melhor alternativa é a defendida por Donald Trump. Façam um acordo com a Rússia, façam a paz, achem uma forma de se entender e assumam a responsabilidade pela sua defesa. Não tem como a OTAN existir sem os EUA e, por isso, faz sentido a intenção de Trump em terminar a guerra na Ucrânia. Só que os europeus não querem e vão descobrir na dificuldade que precisam de uma solução e que ela não é militar."
EUA veem a Polônia como um 'hub' no Leste Europeu
Para Leães, a proximidade de Washington com Varsóvia deve-se ao fato de o governo polonês seguir as diretrizes da Casa Branca, podendo servir como exemplo para os outros Estados europeus que integram a OTAN.
"A Polônia é talvez o país que esteja mais atendendo aos interesses dos Estados Unidos na região e aumentou muito o seu orçamento de defesa ao longo dos últimos anos. Talvez Trump tenha o interesse de se aproximar dos poloneses porque estão dispostos a cumprir com o papel que ele quer para a Europa. [Por isso] a Polônia seja vista pelo Trump como um país modelo nesse sentido."
Outro ponto levantado pelo especialista é que, no cenário pós-conflito, a Polônia, uma das principais aliadas de Washington na região, poderia expandir sua influência ou até integrar territórios e cidades de histórica origem polonesa na Ucrânia Ocidental, como parte de um amplo rearranjo geopolítico na Europa.
"E não nos esqueçamos que a Polônia pode ter também uma importância muito grande num pós-guerra da Ucrânia. Apesar de todos os pesares, a Rússia está vencendo. A Ucrânia pode se tornar um estado falimentar. Aqui a gente está indo num campo especulativo, mas há quem debata até mesmo a possibilidade de que a Ucrânia seja absorvida pela Polônia. Isso poderia vir a acontecer em determinado momento."
'OTAN no divã': impasses provocam crise existencial
Na análise de Ricardo Leães, os impasses internos e as discordâncias sobre a condução da crise ucraniana por parte do Ocidente acabam provocando um distanciamento entre os membros da OTAN, o que deixa o grupo em uma espécie de crise existencial.
"A OTAN está em crise, ou, para usar um linguajar psicanalítico, a OTAN está no divã. A OTAN tá tentando entender exatamente o que ela é e o que pretende. Ao invés de buscar uma solução estrutural para o equilíbrio de poder na Europa, envolvendo a Rússia, os europeus estão tentando, entre aspas, criar uma nova OTAN. Eu digo entre aspas mesmo, porque a gente não tem nenhum indicativo de que eles tenham condições de viabilizar esse cenário."
O avanço dos conflitos na Ucrânia e no estreito de Ormuz gerou graves crises econômicas que abalaram as potências da OTAN. Diante desse cenário de instabilidade global, tradicionais aliados começam a adotar lados opostos, impulsionando uma profunda e imprevisível reconfiguração geopolítica em curso.