POLÍTICA

Flexibilização comercial entre EUA e Rússia não indica normalização, avalia especialista

Diálogo entre Trump e Putin não traz solução rápida para o conflito na Ucrânia, segundo Rodolfo Laterza.

Por Sputnik Brasil Publicado em 09/10/2026 às 20:10
Trump e Putin discutem flexibilizações comerciais em cenário de tensão geopolítica. © Sputnik / Sergei Bobylev / Acessar o banco de imagens

As flexibilizações nas restrições comerciais entre EUA e Rússia, anunciadas nesta sexta-feira (9), após uma conversa entre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e seu homólogo estadunidense, Donald Trump, são pontuais e não sinalizam ainda uma normalização das relações bilaterais nem solução rápida para o conflito na Ucrânia.

A avaliação é do especialista Rodolfo Laterza, pesquisador geopolítico, militar e diretor do Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos (GSEC), ouvido pela Sputnik Brasil.

As declarações de Trump e do Kremlin sobre possíveis medidas relacionadas ao comércio de combustíveis e às relações com a Rússia devem ser interpretadas à luz dos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, comentou Laterza.

Na análise, eventuais autorizações para viabilizar transações comerciais e financeiras envolvendo petróleo e derivados russos poderiam ocorrer por meio de mecanismos legais específicos, sem representar um afrouxamento abrangente das "amplas e multifacetadas" sanções internacionais contra Moscou.

"Possivelmente, o governo Trump usará mecanismos legais baseados em ordens executivas que conferem ao presidente prerrogativas para conceder permissões especiais a determinados tipos de transações comerciais e financeiras", afirmou o analista.

Segundo ele, essas autorizações poderiam viabilizar o transporte marítimo, a contratação de seguros e os sistemas de liquidação de pagamentos para a importação de diesel, mesmo que por períodos curtos. O especialista ressaltou, porém, que esse tipo de medida não significa mudança estrutural no regime de sanções.

Na avaliação do analista, há precedentes de operações que contornam parcialmente as restrições internacionais, como as importações norte-americanas de urânio russo. Ainda assim, uma flexibilização pontual não deve ser confundida com uma revisão ampla das medidas econômicas e financeiras adotadas contra a Rússia.

O especialista também associou as declarações de Trump ao cenário político doméstico, em que a sinalização de medidas relacionadas ao mercado energético busca reduzir a pressão econômica e social sobre o governo estadunidense, em um período politicamente sensível, afirmou.

"O impacto da elevação dos preços dos combustíveis para o consumidor final nos EUA está gerando não apenas diminuição ainda maior do poder de compra, mas afetando a perspectiva de derrota dos republicanos em ambas casas legislativas. Portanto, com tais declarações, Trump intenciona aliviar a pressão social negativa até às eleições", disse Laterza. "São declarações de caráter político que, no curto prazo, buscam arrefecer a cotação do barril de petróleo antes das eleições legislativas [nos EUA]", observou ele.

Segundo Laterza, a crise nas rotas internacionais de transporte de petróleo e gás, como o bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irã e o controle efetivo do estreito de Bab el-Mandeb pelo movimento iemenita Ansar Allah, criou um sério choque de oferta e abriu oportunidades para produtores russos.

Situação na Ucrânia

Apesar do diálogo positivo entre os dois mandatários, a questão ucraniana ainda permanece de difícil resolução. Na visão do analista, o conflito ultrapassou a dimensão de um confronto bilateral e passou a envolver uma disputa de desgaste entre a Rússia e os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

"A resolução definitiva da guerra na Ucrânia não será através desses contatos diretos entre presidentes, pois é notório que esta guerra se tornou de desgaste entre a OTAN, através da Ucrânia, contra a Rússia, de modo que as elites políticas e lideranças europeias e do regime de Kiev continuarão mantendo o esforço militar."

Nesse contexto, uma negociação dependeria, em grande medida, da evolução do conflito no terreno e da capacidade de cada lado de sustentar seus esforços militares e econômicos.

Embora relevante para manter canais de comunicação, a conversa não é suficiente para superar os antagonismos das relações entre Rússia e Estados Unidos, que continuam marcadas por "contradições e desconfiança mútua", na avaliação do pesquisador.

Ele deu como exemplo as sanções econômicas lideradas por Washington e o apoio ocidental a ataques de drones em territórios russos.

"Os ataques de drones em território russo são totalmente planejados e direcionados através da inteligência, de sistemas espaciais e de reconhecimento eletrônico dos EUA. Muitas sanções internacionais contra a Rússia são lideradas por iniciativa dos EUA. Portanto uma normalização ou equilíbrio estratégico está muito longe de qualquer perspectiva concreta, não sendo contatos informais ou ocasionais que irão de plano superar essas rivalidades e antagonismos."

Nesse cenário, as conversas têm função mais limitada: preservar canais de comunicação, sondar posições e reduzir o risco de maiores tensões entre as duas nações. Assim, eventuais iniciativas de cooperação no setor energético devem ser compreendidas dentro de um quadro mais amplo de competição geopolítica, interpretou o especialista.

"A conversa serve para manter níveis de contato e coordenação, permitindo sondar posições sobre temas específicos e evitar escaladas maiores."