TECNOLOGIA

Guerra tecnológica: como os governos disputam a inovação

Análise destaca o impacto da digitalização na geopolítica global e a rivalidade entre EUA, China e Rússia.

Por Sputnik Brasil Publicado em 09/10/2026 às 10:16
Análise sobre como a tecnologia se tornou um ativo de poder nacional na geopolítica atual. © Sputnik / Tabata Hellen

Da inteligência artificial aos aplicativos bancários, passando por celulares, redes sociais e infraestrutura industrial, a digitalização transformou tecnologias antes vistas como ferramentas econômicas em ativos de poder nacional. A corrida por chips, minerais críticos, dados, nuvem e algoritmos tornou-se parte da disputa geopolítica entre países.

É nesse cenário que ganha força a Pax Silica. Trata-se de uma iniciativa dos Estados Unidos para blindar e priorizar suas próprias empresas, como as big techs do Vale do Silício, na corrida tecnológica mundial. Essa estratégia, contudo, transborda para uma disputa geográfica por minerais críticos e envolve pesadas sanções contra países rivais. A análise é do doutorando em geografia Alexandre Perez, em entrevista à Sputnik Brasil.

"A Pax Silica, que os EUA estão levando à frente, está totalmente alinhada com a sua política estatal, e o Vale do Silício tem um papel central em construir uma segurança de suprimento de toda essa cadeia produtiva. O Vale do Silício tem outro papel importante, para que não deixe que rivais geopolíticos dos EUA tenham acesso a esses determinados produtos, a determinadas matérias e a determinadas patentes", disse.

Nesse sentido, o pesquisador também aponta que as sanções impostas por Washington podem gerar efeitos colaterais para o próprio país. No âmbito da disputa tecnológica, ao tentar isolar Pequim, os EUA acabam se privando do acesso a inovações e novidades desenvolvidas pela China, uma de suas rivais na geopolítica.

"A gente tem observado nos últimos 20 anos que a China tem tido um grande sucesso em ter acesso a tecnologias ocidentais e utilizar essas tecnologias para criar as suas próprias. Todo esse bloqueio que os EUA têm feito, na verdade, isso pode sair pela culatra, porque a China pode desenvolver coisas até mais sofisticadas e mais avançadas do que aquilo que é feito pelos Estados Unidos e por seus parceiros", comenta.

Rússia e China são a alternativa à Pax Silica dos EUA

Outro ponto levantado por Perez é que Moscou e Pequim, apesar das sanções ocidentais, despontam na produção de tecnologia autóctone e se consolidam como uma alternativa para países do Sul Global que buscam soberania.

"Outros países que se colocam de maneira contra-hegemônica, combativa e conflitante em relação aos EUA acabam sendo sancionados. Mesmo que a China e a Rússia não sejam 100% alinhadas em tudo, em algumas coisas eles conseguem se alinhar, como, por exemplo, a promoção do multilateralismo, para não ficar uma ordem hegemônica internacional, apenas com os EUA comandando o que acontece no mundo", destaca.

O analista internacional cita como exemplo a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês), criada pela China e que reúne diversas nações como membros fundadores, incluindo o Brasil e a Rússia.

"A China também está levando à frente uma iniciativa, a WAICO. Essa organização, levada à frente pela China, preza por um multilateralismo com outros atores, políticos e econômicos ao redor do mundo, para além daqueles ocidentais e aliados estratégicos do Ocidente, quer dizer, aliados estratégicos dos Estados Unidos", observa.

Brasil também tem espaço na corrida pela tecnologia

Brasília, que também integra a WAICO, ocupa outro espaço relevante na corrida tecnológica com o sucesso do Pix. Como enfatiza Perez, o sistema brasileiro incomodou o governo de Donald Trump, sob a alegação de que a inovação prejudica o mercado e as empresas norte-americanas.

"Até o Brasil começa a ter um papel cada vez mais central, por exemplo, em relação aos BRICS. E olha de novo a questão estratégica dessas tecnologias. O Trump está colocando como uma das grandes questões, um dos grandes motivos para sancionar o Brasil, é a utilização do Pix, porque o Pix brasileiro prejudica empresas dos Estados Unidos", conclui.

Em um mundo multipolar, a tecnologia é crucial para a soberania dos Estados nos níveis econômico, político e militar. As ferramentas na palma da mão do cidadão comum também servem para rastrear comportamentos. Por isso, controlar esse novo fluxo tecnológico tornou-se vital para se proteger e projetar poder no cenário internacional.


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