INCÊNDIO

PF investiga incêndio na UFPE em duas frentes

Ação ocorre após fogo destruir prédio da antiga Diretoria de Inovação e Empreendedorismo no Recife.

Por Estadao Conteudo Publicado em 09/10/2026 às 08:45
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

A Polícia Federal (PF) divide em duas frentes as investigações sobre o incêndio que destruiu o prédio da antiga Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, na noite de quarta-feira (7). Segundo o Delegado Regional Executivo e substituto da Superintendência da PF em Pernambuco, Rodrigo Bastos, a investigação concentra-se na identificação da origem do fogo, a partir de uma perícia no prédio, e em paralelo, a dinâmica dos fatos que antecederam o incêndio.

"A partir de hoje (ontem, quinta-feira, 8) de manhã houve a instalação imediata de inquérito policial e vieram equipes tanto de perícia quanto de investigação até a universidade para iniciar os trabalhos", afirmou em entrevista coletiva no local do incidente.

O delegado explicou que a perícia depende de melhorias no escoramento e reforço estrutural, sob responsabilidade da universidade, para que os peritos possam entrar no local com segurança. A operação conta com reforço de equipes especializadas do Instituto Nacional de Criminalística (INC). Um levantamento inicial no interior da estrutura foi realizado na manhã de quinta utilizando um robô.

O incêndio teve início na noite de quarta-feira, no edifício localizado no campus da UFPE, zona oeste do Recife, onde funcionavam laboratórios estratégicos das áreas de fármacos, informática, genética e o Núcleo de Pesquisas em Inovação Terapêutica (Nupit). O combate ao fogo mobilizou oito viaturas do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE) ao longo da madrugada, entre 19h30 de quarta até 5h desta quinta-feira. Não houve registro de vítimas.

O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, afirmou ter acionado a PF devido ao recebimento de ameaças de ataques à UFPE nas redes sociais. "Há muitos boatos em torno dessa questão. Nós achamos um absurdo uma instituição pública, com a tradição que é a Universidade Federal ser objeto, portanto, de ataques nas redes sociais. Repudiamos profundamente essa atitude. Então, pedimos à Polícia Federal a abertura de processos em relação às causas do incêndio e também a circulação de ameaças à nossa comunidade estudantil", afirmou Alfredo Gomes.

O delegado da PF, Rodrigo Bastos, confirmou que suspeitos foram ouvidos pela PF nesta quinta-feira e outros devem prestar depoimento nesta sexta-feira, 9. Circulam nas redes sociais prints de conversas em grupos de aplicativos de mensagens e comentários em publicações com ameaças de explosão de departamentos e alertando para que estudantes "fiquem espertos com a bomba".

Nos últimos oito dias, esse é o terceiro caso de incêndio registrado em prédios da instituição. O reitor garantiu que os outros dois casos foram solucionados. O primeiro ocorreu no Departamento de Física devido a um experimento de laboratório, e o segundo no Centro de Biociências por conta de um curto-circuito em um aparelho de ar-condicionado, disse o gestor da UFPE.

O reitor tranquilizou ainda a comunidade do entorno sobre o risco de vazamento de substâncias perigosas, alegando que todo o material presente no prédio foi completamente consumido pelas chamas, sem perigo de contaminação química ou biológica.

O prédio do antigo Dine está situado ao lado da Casa dos Estudantes. Os primeiros sinais do incêndio foram vistos em uma das janelas do último andar do prédio de três pavimentos, onde funcionaria um laboratório. Segundo os estudantes, o vigilante da guarda patrimonial responsável pela área tentou chegar até esse laboratório para impedir o avanço do fogo, mas a porta estaria trancada por uma trava de segurança.

Emmanoel Bezerra, de 24 anos, é morador da Casa dos Estudantes e foi um dos primeiros a observar as chamas. "A gente chegou logo no começo do incêndio dentro do laboratório, no último andar. A gente viu que o fogo já estava fora do laboratório, estava pegando no ar-condicionado do andar de baixo", relatou o estudante de Física. Os estudantes registraram vídeos que mostram as chamas atingindo o pavimento superior do prédio e a estrutura externa de um ar-condicionado no andar de baixo em chamas.

"(O fogo) começou no laboratório e um pouco da fuligem acabou pegando no ar-condicionado do andar de baixo. Quando o Corpo de Bombeiros chegou, ainda estava contido no quarto e, então, acabou se alastrando mais até pegar todo o departamento", conta Emmanoel. Em frente ao prédio, existe um Posto Estático de Vigilância da UFPE, que conta com diversas câmeras de segurança. O reitor da UFPE não informou se as câmeras estavam funcionando no momento e se serão utilizadas pela investigação.

"A gente ficou ali um tempo até começar as explosões, as janelas acabavam estourando, a fumaça ia aumentando e a gente pensava: 'Vamos afastar porque tá ficando perigoso.' Quando a gente se afastava, o incêndio avançava mais e mais, consumindo tudo. Chegou uma hora que já estava descontrolado e todos os moradores aqui embaixo estavam assustados. Muitos saíram, não ficaram aqui. A fumaça mais tarde acabou entrando e todos ficaram com um cheiro insuportável", completa o morador da Casa. O estudante relata que não houve acionamento de alarme de incêndio e que o fogo foi percebido por um estudante que passava pelo local.

Willyberg Gonçalves, de 22 anos, foi quem notou a fumaça e acionou a segurança interna do campus. "Eu estava chegando da academia e avistei o laboratório como se estivesse com a luz acesa, com muita luz. Senti um cheiro de fumaça e percebi que era fogo. Inicialmente estava um fogo explosivo, depois ele foi descendo pela parede e começou a pegar na área de um motor que estava ligado. Nesse momento, o incêndio não era só um fogo, além de se espalhar ele causava explosões e emanava gases tóxicos para quem estava por ali", afirma o estudante de Fisioterapia de 22 anos.

Alfredo Macedo Gomes estimou o prejuízo em aproximadamente R$ 100 milhões, ressaltando a perda de equipamentos de alta tecnologia, bancos de dados e amostras científicas ligadas a cerca de 200 dissertações de mestrado e teses de doutorado em andamento. Apesar dos estragos concentrados no prédio isolado, as atividades acadêmicas do campus foram mantidas nesta quinta-feira, 8, incluindo a realização da Expo UFPE 2026, feira de profissões voltada a estudantes do ensino médio.

Em visita às instalações atingidas, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, esteve no local e anunciou a liberação de cerca de R$ 28 milhões para a construção de um novo edifício. A obra utilizará um projeto executivo já existente, adotado no campus de Sertânia, com previsão de início em até 30 dias. Segundo o ministro, o MEC fará a recompra dos equipamentos destruídos e manutenção do pagamento e do prazo das bolsas de estudo pelo tempo que for necessário.