SAÚDE

Outubro Rosa: ansiedade persiste mesmo após tratamento

Mulheres enfrentam medos e inseguranças após encerramento do tratamento do câncer de mama.

Por Agência Brasil Publicado em 08/10/2026 às 12:59
Psicóloga Laís Mutuberria Vieira fala sobre os medos que persistem após o tratamento do câncer.

As campanhas do Outubro Rosa são tradicionalmente marcadas por informações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Porém, existe uma dimensão menos abordada: com o fim do tratamento, o medo da doença retornar ainda assombra muitas mulheres.

“Enquanto familiares e amigos celebram a remissão e esperam que a vida volte ao normal, a mulher pode continuar convivendo com medos, inseguranças e transformações que não desaparecem com o fim do tratamento”, escreve, em artigo, a psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira.

Segundo Laís, durante meses, as mulheres enfrentam uma nova rotina com visitas a hospitais, médicos e exames. “Quando a quimioterapia e a radioterapia terminam, esse contato diminui e começa uma nova etapa, cheia de incertezas e medo da doença voltar”, afirmou à Agência Brasil.

A especialista ressalta que, além do acompanhamento médico, o suporte emocional deve ser mantido, respeitando o ritmo de cada mulher, para ajudá-las a reconstruir a confiança na própria vida, mesmo diante de incertezas.

“A última sessão de quimioterapia ou radioterapia pode marcar o fim de um tratamento, mas não o cuidado com essa mulher, que ainda precisa continuar”.

Muitos familiares e amigos podem se afastar após o tratamento, e a mulher, receosa da recaída, enfrenta o medo da solidão. “Os exames de acompanhamento podem despertar medo; qualquer alteração ou dor pode ser interpretada como reincidência da doença. Essa mulher ainda precisa de apoio”, afirma Laís.

“Essas mudanças podem afetar a autoestima, o desejo, a sensação de atratividade e a forma como essa mulher se reconhece no espelho, repercutindo também em dimensões mais amplas da sexualidade, como o toque, a espontaneidade, a confiança e a disponibilidade para o vínculo íntimo”, acrescenta.

A médica mastologista e radiologista Renata Reis Pinto, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), lembra que o câncer de mama ainda carrega muitos estigmas. “Ainda vemos a doença como uma sentença de morte, que traz muitas dúvidas e medo da evolução”, afirma.

Segundo a médica, proporcionar um espaço para que a paciente fale sobre suas questões é essencial para o tratamento. “É importante oferecer para a paciente um tratamento multidisciplinar, com assistente social que pode ajudar em questões como onde ficará o filho durante o tratamento, além do suporte psicológico, que é fundamental para perceber até que ponto esse medo está tão intenso que a paciente possa necessitar de alguma medicação”, ressaltou.

Josiane Fernandes, de 48 anos, de Volta Redonda, descobriu o câncer de mama em 2025. Ela percebeu um nódulo na mama esquerda e, após o diagnóstico, submeteu-se a cirurgia, quimioterapia e imunoterapia por um ano e três meses.

“Eu não contei para ninguém. Eu sofri sozinha. Só falei para meu marido depois da biópsia. Entrei em depressão e precisei de tratamento”, contou.

Após o fim do tratamento, Josiane ainda faz acompanhamento médico. “O tratamento pode terminar, mas o medo nem sempre termina junto. Até hoje, em uma consulta de rotina, eu entro em pânico. Parece que volta tudo o que eu vivi. As pessoas que passam por câncer deveriam ter um cuidado no pós-tratamento. Existe vida depois do câncer, mas essa vida precisa ser reconstruída”, concluiu.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que, para este ano, o câncer de mama será o tumor mais incidente entre as mulheres, com 30% dos casos. A previsão é de 78.610 novos casos no Brasil, correspondendo a 71,57 casos novos a cada 100 mil mulheres.