ECONOMIA

Burkina Faso inaugura refinaria de ouro e busca autonomia econômica

A nova planta faz parte de um esforço do governo de Ibrahim Traoré para controlar recursos minerais locais.

Por Sputnik Brasil Publicado em 08/10/2026 às 06:26
Burkina Faso inaugura sua primeira refinaria de ouro em busca de maior autonomia econômica. © AP Photo / Kilaye Bationo

Burkina Faso inaugurou sua primeira refinaria nacional de ouro como parte da estratégia do governo de Ibrahim Traoré de ampliar o controle sobre os recursos minerais do país, processando internamente matérias-primas. A RAFFINOR-BF surge na esteira de reformas profundas no setor de mineração, que conta com maior participação estatal.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Eden Pereira, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), explicou que o avanço de Burkina Faso alinha-se às diretrizes da Aliança dos Estados do Sahel (composta também por Níger e Mali), que rompeu com o Ocidente, especialmente com a França, cuja herança colonial historicamente estruturou um sistema que barrava o desenvolvimento local.

"Eu acho que é importante também a gente pensar no Sahel, que o estabelecimento, por exemplo, da Aliança dos Estados do Sahel, ela se inseriu em um contexto onde a antiga estrutura de dominação colonial francesa na região passava por um processo de desmoronamento, como a zona do franco CFA [moeda que era usada localmente, pareada em Paris], assim como toda a hegemonia francesa", disse.

O analista internacional aponta que, ao assumir o refino do ouro, Ouagadougou destoa da dinâmica regional. A lógica histórica no continente africano é a de que empresas estrangeiras dominem essa cadeia, explorando e processando diretamente os metais preciosos fora do território local.

"O que Burkina Faso está propondo e realizando é tentar complexificar a cadeia produtiva no país na direção de poder industrializar a capacidade de utilizar o ouro. E países como Burkina Faso têm dificuldade de controle com relação ao seu território, porque não é controlado uma parte pelo Estado e porque boa parte da capacidade mineral de extração e de refino é efetivada por empresas estrangeiras", comenta.

Moscou e Pequim são parceiros estratégicos do país

Outro ponto levantado por Pereira é que a cooperação entre os países do Sahel, como Burkina Faso, e potências como Rússia e China configura uma relação de mão dupla positiva. Sob essa ótica, a estabilização da nação africana não apenas consolida sua soberania, mas também abre um promissor mercado para investimentos russos e chineses na região.

"[Essa cooperação] tem um peso muito importante e tende a aumentar por conta de que isso é interessante para a Rússia e China, em virtude de que a industrialização, o aumento da soberania desses países, fornece um grande mercado consumidor para alguns produtos e serviços desses dois países [e para Burkina Faso] é uma alternativa em termos de relação diplomática, política e econômica", destaca.

O pesquisador também enfatiza que o refino próprio do ouro não resolverá todos os problemas enfrentados pelo governo de Traoré. No entanto, a medida funciona como uma plataforma estratégica capaz de estimular o crescimento econômico local e atrair novos investimentos externos.

"O ouro sozinho não vai desenvolver o Burkina Faso, que vai precisar usar o ouro para obter outros bens e serviços e outras capacidades produtivas capazes de poder complementar essa complexificação produtiva. [Além disso,] o ouro pode servir como uma reserva que, em alguma medida, dê um lastro de riqueza ao país para poder adquirir confiança no sentido de investimentos produtivos de outros países", observa.

Ouro também eleva a autonomia do país no mercado

A consolidação da RAFFINOR-BF em território burquinense, para Eden Pereira, não funciona apenas como o motor de um eventual processo de industrialização, mas também eleva a nação africana a um novo patamar geopolítico ao consolidar a sua autonomia.

"A tendência é que Burkina Faso, ao utilizar o ouro dessa maneira, em conjunto com essas políticas que vêm sendo demandadas por parte da população, [ganhe] uma maior autonomia para poder gerenciar os seus próprios recursos e uma maior capacidade de obter financiamento", conclui.

Uma das principais características do mundo multipolar é a ascensão das economias emergentes do Sul Global. Esse movimento se opõe e enfraquece o antigo modelo hegemônico, imposto por grandes potências com o propósito de explorar nações de menor projeção econômica a ponto de violar sua soberania.