África inaugura agência própria de classificação de risco de crédito
AfCRA busca ampliar avaliação de países e empresas africanas e reduzir dependência de agências internacionais.
A África passa a contar com uma agência própria de classificação de risco de crédito, criada sob mandato da União Africana (UA) para ampliar a participação do continente na avaliação de seus governos, empresas e instituições.
A Agência Africana de Classificação de Risco de Crédito (AfCRA, na sigla em inglês) foi oficialmente lançada na quarta-feira (7), em Balaclava, nas Ilhas Maurício, e terá sede na capital Port Louis.
A criação da AfCRA ocorre em um mercado internacional concentrado em três grandes agências sediadas nos Estados Unidos: Standard & Poor's (S&P), Moody's e Fitch reúnem cerca de 95% do mercado mundial de classificação de risco. As avaliações dessas empresas influenciam o custo de financiamento de governos e companhias e dividem os emissores, de forma geral, entre aqueles considerados de grau de investimento e os classificados como grau especulativo.
A nova agência pretende ampliar a quantidade de países e empresas africanos avaliados e oferecer uma análise que leve em conta as particularidades econômicas do continente. Atualmente, apenas 32 países africanos possuem classificação atribuída pelas três principais agências internacionais, segundo dados da UA.
A AfCRA será uma instituição independente, financiada pelo setor privado e sem participação acionária de governos. A estrutura foi estabelecida sob supervisão do Mecanismo Africano de Avaliação pelos Pares, ligado à UA, justamente para preservar a autonomia da agência em relação a interesses políticos.
Durante o lançamento, o presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, afirmou que a iniciativa pretende fornecer a investidores africanos e internacionais estudos e análises sobre as economias do continente. Segundo ele, avaliações de risco influenciadas por "considerações políticas" podem elevar o custo de capital e dificultar investimentos em infraestrutura, saúde, educação, energia e industrialização.
A pressão sobre as finanças dos países africanos também aparece nos dados apresentados pela UA. O serviço da dívida externa do continente passou de US$ 61 bilhões (R$ 306,2 bilhões) em 2010 para US$ 163 bilhões (R$ 818,3 bilhões) em 2024, enquanto os pagamentos de juros já superam os gastos públicos com saúde ou educação em grande parte dos países.
A criação da AfCRA ocorre em meio a críticas ao papel desempenhado pelas grandes agências internacionais na economia global. Apesar de apresentarem suas classificações como avaliações técnicas, especialistas apontam que os modelos utilizados carregam determinadas visões sobre política econômica e desenvolvimento e podem pressionar governos por reformas estruturais e privatizações.
Contudo, a própria UA ressalta que a nova instituição não pretende substituir S&P, Moody's e Fitch. A proposta é acrescentar ao mercado uma perspectiva voltada especificamente às condições econômicas africanas e ampliar as informações disponíveis para investidores e credores.
Além de governos nacionais, a AfCRA poderá classificar governos estaduais, empresas, instituições públicas e privadas e, conforme decisão de sua administração, entidades de fora do continente. A agência também deverá contribuir para ampliar o acesso de emissores africanos aos mercados de capitais, hoje limitado pela ausência de avaliações de risco para a maior parte dos países da região.