ELEIÇÕES

O impacto das big techs na democracia brasileira pós-eleições

Analistas alertam sobre a influência das redes sociais e irregularidades nas eleições de 2023.

Por Sputnik Brasil Publicado em 07/10/2026 às 21:15
Eleições e o impacto das big techs na democracia brasileira. © AP Photo / Jenny Kane

Se o 8 de janeiro de 2023 não foi suficiente para evidenciar o protagonismo das redes sociais e das big techs na política brasileira, o resultado das eleições do último domingo (4) escancarou o poder dessa nova arena do debate público.

Analistas ouvidas pela Sputnik Brasil foram uníssonas ao avaliarem que o poder de influência das grandes plataformas digitais, como gerenciadoras das relações sociais, está "sem rédeas" e impactando a democracia do país.

Eleições e big techs

Chatbots que operaram como cabos eleitorais, contas derrubadas sem justificativa, anúncios políticos pagos em dólar por anunciantes nos EUA, conteúdos de IA sem rotulagem: estas foram algumas das irregularidades cometidas por plataformas digitais no primeiro turno destas eleições.

A afirmação é de Daniela da Silva, diretora-executiva e cofundadora da organização CTRL+Z, que denuncia e combate abusos e violações das big techs no Brasil, como a que proíbe sistemas de IA de ranquear, recomendar ou favorecer candidaturas.

Um relatório com evidências documentadas foram entregues pela ONG aos órgãos de justiça competentes. Além da responsabilização das empresas, a ação pediu a divulgação sobre os lucros com anúncios ilegais, entre outras providências.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob a batuta do ministro Kassio Nunes, recebeu material robusto com as evidências das irregularidades. Mas até o momento nada foi feito, afirmou da Silva.

"A impunidade com certeza é um problema, a gente precisa levar as empresas à responsabilização quando elas não cumprem as regras. O TSE faz demonstrações muito tímidas, inclusive ressaltando a colaboração das empresas nos últimos dias, a sociedade toda vendo questões como remoção de contas, anúncios irregulares, e aí na outra ponta a gente tem quase uma confirmação do que essas empresas fizeram como se estivesse tudo bem, o que é um grande problema."

Da Silva ressaltou, no entanto, que responsabilizar e punir apenas não basta: "A gente precisa de uma verdadeira reestruturação no modelo de operação das big techs, porque não tem como conciliar o modelo de operação delas hoje com a saúde do nosso sistema democrático", argumentou.

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), com regras para moderação de conteúdo, sobre danos causados em crianças e adolescentes, bem como regras mais severas para responsabilizar as big techs por ilegalidades foram avanços recentes importantes, na opinião da diretora da CTRL+Z. Mas é preciso ir além.

"Uma coisa que é importantíssima é a regulação de mercados digitais, a responsabilização dessas empresas por práticas anticompetitivas para termos outro sistema de negócios que permita a emergência de outros modelos e ferramentas."

Mas a tarefa para os próximos anos será árdua. Um levantamento da ONG dirigida por da Silva identificou que quase todos os parlamentares brasileiros que mais apoiaram os interesses das big techs na última legislatura conquistaram cadeiras no Senado ou foram reeleitos para a Câmara.

Soluções alternativas 'resilientes'

Apesar da hegemonia das plataformas estadunidenses, novas redes sociais despontam no horizonte brasileiro. É o caso da plataforma chinesa Bilibli, que tem mais de 370 milhões de usuários no mundo e relançou seu aplicativo internacional em agosto de 2026 com interface em português, com foco em usuários e criadores brasileiros.

Ela citou exemplos de coletivos que têm desenvolvido tecnologias para armazenamento, de soluções para processamento de alta qualidade que podem ser aglutinadas e pensadas em um contexto cooperativo.

Além da gigante asiática, outras redes sociais do Sul Global estão buscando quebrar o monopólio de grandes corporações, como Meta (plataforma proibida na Rússia por extremismo), Google, Microsoft e Apple, sobre as comunicações digitais.

A própria ONG CTRL+Z utiliza a rede Matrix que visa a descentralização e liberdade protocolo ("idioma") aberto com a mesma proposta de mensagens instantâneas que as já famosas WhatsApp, Telegram, Discord.

Há ainda a Mastodon, que também tem estrutura aberta, descentralizada e focada na comunidade, como rede social. Em ambas as redes, qualquer pessoa, comunidade ou governo pode criar e gerenciar seu próprio servidor, ditando suas próprias regras de convivência.

Briga de 'cachorro grande'

Pesquisadora do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin) e integrante da Coalizão Direitos na Rede, Raquel Rachid lembrou que as plataformas mais utilizadas no Brasil são estadunidenses e a entrada da Bilibli representaria não apenas uma disputa comercial e mercadológica, como também geopolítica.

"É notório que existe esse processo de influência imperialista e que, por exemplo, soluções como o DeepSeek [IA chinesa], irritaram muito os EUA à época quando a China lançou, porque competem com as suas tecnologias. Então esse processo que se dá de competição entre empresas, é um processo de competição entre Estados no limite", afirmou ela, desde Moscou, onde está terminando o pós-doutorado.

Pós-doutoranda pela Universidade de São Paulo (USP) e pela universidade russa HSE University (Escola Superior de Economia), Rachid também defendeu que "a ameaça estadunidense está muito nítida no contexto eleitoral brasileiro, em que a estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos já diz da influência sobre a América Latina. Então, zero surpresas".

Ela observou ainda que boa parcela da população não tem ciência de que a interação nas plataformas é condicionada por uma série de decisões com interesses empresariais, mercadológicos que passam por cima da autonomia do usuário.

Investimento público em software livre

Ambas as entrevistadas destacaram a importância de investimentos públicos no desenvolvimento de softwares livres como soluções alternativas.

Para da Silva, as alternativas às big techs são, sobretudo, "um movimento de resiliência", que diminui a dependência social, pública e política dos serviços das poucas empresas oriundas de um único país.

"A gente não precisa abandonar esses serviços [...] Mas temos outras opções que constroem uma resiliência nos nossos planos de comunicação, de estratégia política, que muda o jogo", ponderou.

Rachid lembrou que o Brasil já foi muito atuante em investimentos para o software livre em anos anteriores:

"Governos anteriores foram muito sérios com relação ao desenvolvimento dessas políticas, houve uma descontinuação, mas mesmo assim as próprias empresas muitas vezes usam o software livre para desenvolver essas soluções e depois restringi-las sobre proteção ao direito à propriedade intelectual", lamentou.

Para a pesquisadora da USP e da HSE, dificilmente uma iniciativa privada que busque desenvolver modelos robustos de inteligência artificial terá condição de escalar sem suporte governamental "até mesmo porque isso elide a necessidade de, enfim, gerar retornos financeiros, torna as iniciativas um pouco mais confortáveis para testar coisas e trazer possibilidades", opinou.

A pesquisadora frisou que não se pode incorrer, no entanto, no risco de que um fundo público para essas tecnologias seja utilizado para financiar o setor privado com fins unicamente de lucro:

"E que favoreça as mesmas situações sociais e não distribua poder de escolha ou poder de influência para movimentos sociais ou uma escolha popular, em contexto mais popular", defendeu a integrante da Coalizão de Direitos na Rede.