Consequências de um ataque a Kaliningrado, segundo especialista
Analista destaca os riscos e a defesa russa em torno do exclave cercado por países da OTAN.
A Rússia voltou a advertir que responderá a qualquer tentativa de atacar ou isolar Kaliningrado, exclave russo cercado por países da OTAN. Moscou afirma que poderia recorrer a todo seu arsenal, inclusive nuclear, enquanto a aliança atlanticista amplia exercícios e sua presença militar no flanco oriental na região do Báltico.
Neste cenário complexo, Ricardo Cabral, editor do canal Geopolítica & História Militar e autor do livro "Guerra na Ucrânia: análises e perspectivas", destacou, em entrevista à Sputnik Brasil, que qualquer tentativa europeia de incursão contra Kaliningrado traria graves consequências aos invasores.
"Tem tantos recursos militares ali que não seria uma boa ideia avançar em direção [a Kaliningrado]. Hipoteticamente, se houvesse uma guerra convencional. A Frota do Báltico [russa] tem submarino convencional. E o mar ali é raso, então, um submarino convencional em mar raso faz com que a OTAN não passe com um comboio porque as rotas serão todas cobertas e também [pode] bloquear o porto de Hamburgo", disse.
O especialista também chama a atenção para dois pontos fundamentais: o exclave de Kaliningrado desponta como um dos territórios mais protegidos pela Rússia e o país conta com o Oreshnik, um míssil balístico hiperveloz de alto poder letal desenvolvido para as forças russas. Além disso, o analista ressalta o peso estratégico de Minsk, que já abriga parte do arsenal tático de Moscou na região.
"Essa é uma das regiões mais bem defendidas da Rússia. E agora, com a Finlândia e com a Suécia na OTAN, Kaliningrado exponenciou todo o seu potencial geopolítico e militar. Lembro que tem Oreshnik em Belarus e é muito provável que os russos também tenham Oreshnik em Kaliningrado, até para se defender", comenta.
OTAN, ao provocar a Rússia, tensiona a região báltica
Segundo análise de Cabral, o mar Báltico se encontra tensionado por causa do objetivo de países da OTAN em tentar cercar Kaliningrado, para transformar todo o perímetro de navegação em uma espécie de "mar atlanticista" para uso da aliança militar ocidental.
"A OTAN faz [exercícios militares] com frequência ali em frente a Kaliningrado. Isso não é somente para pressão e demonstração de poder, e sim, um assédio para demonstrar que podem chegar a qualquer hora. A OTAN busca fortemente a expansão para tornar o Báltico um 'mar otanista', um 'mar atlanticista'", destaca.
O analista internacional também pontua que o corredor de Suwalki, faixa de terra que passa entre a Lituânia e a Polônia e separa o exclave russo de Kaliningrado de Belarus, funciona como o principal ponto de contato e atrito entre a Rússia e o Ocidente na região. Atualmente, a área também enfrenta uma forte escalada de tensão devido ao aumento das atividades e exercícios militares da OTAN, movimentos que Moscou classifica como uma postura provocativa.
"O corredor Suwalki, que também incomoda demais poloneses e outros países, foi colocado nesta situação por causa do Ocidente. Isso é um jogo que vem sendo jogado desde o final da Guerra Fria, onde dizem que a Rússia é uma ameaça, mas quem cercou Kaliningrado não foram os russos, mas sim a OTAN, que foi incorporando Estados bálticos, de modo que Kaliningrado está hoje no meio de territórios hostis", observa.
Kaliningrado tem um peso estratégico na geopolítica
Foi incorporada à União Soviética e, posteriormente, à Federação da Rússia após o fim da Segunda Guerra Mundial (Grande Guerra pela Pátria, como esse período é conhecido na Rússia). Na ocasião, Kaliningrado correspondia à antiga Prússia Oriental da Alemanha e era conhecida como Konigsberg.
Ricardo Cabral enfatiza que, por estar encravada no coração da Europa Central, na estratégica costa do mar Báltico, a posição geográfica do exclave se torna altamente valorizada para o aparato de defesa russo.
"A partir do século XX, o fim da União Soviética coloca Kaliningrado numa posição singular, já que permite uma posição estratégica avançada que permite, através do mar, interditar ameaças à Rússia vindas por parte da OTAN e, com isso, Kaliningrado exponenciou todo o seu potencial geopolítico e militar", conclui.
Diante do recrudescimento do cenário internacional, marcado por conflitos crescentes, expansão de novas rotas comerciais e relações diplomáticas severamente desgastadas, o fator territorial e a geografia voltam ao centro do debate, tornando-se não apenas relevantes, mas fundamentais para a preservação da soberania de uma nação.