POLÍTICA

Crise política na França reflete desafios na Europa, analisa especialista

A dívida pública e a instabilidade interna afastam a França de um papel de liderança na União Europeia.

Por Sputnik Brasil Publicado em 06/10/2026 às 09:02
Análise de especialista sobre a crise política na França e suas repercussões na Europa. © AP Photo / Markus Schreiber

As greves e protestos que tomaram a França ocorrem no momento em que o país enfrenta uma dívida pública de 119% do PIB e severa instabilidade política, ao mesmo tempo em que mantém seu apoio militar à Ucrânia. Além disso, outros países europeus também passam por crises e defendem posições divergentes na política regional.

A complexa situação da França também se traduz como um reflexo da crise no próprio bloco europeu, conforme explica Pedro Martins, doutorando em Relações Internacionais pela UERJ. Nesse cenário, o presidente Emmanuel Macron tenta exercer um papel de liderança entre os países da zona do euro, mas não obtém sucesso, além de também haver uma falta de coesão política na União Europeia (UE).

"Quando a [Angela] Merkel sai, a UE não consegue colocar um líder à altura para conseguir fazer esse tipo de coordenação política. A crise econômica também acaba dificultando. E o Macron tenta assumir essa coisa de liderança europeia e não consegue porque a Europa está dividida, internamente a Europa, e não está conseguindo mais se entender e nem mais coordenar posições", disse.

O pesquisador também ressalta que a política externa funciona como um mecanismo crucial para Macron, que tenta utilizar eventuais vitórias internacionais para projetar força junto ao público interno e contornar os impasses domésticos.

"A negociação, a política, deixa de ser qual é o projeto melhor para a França e passa a ser: manter a estabilidade de um determinado regime político na França. Então, ele [Macron] tenta usar o sucesso exterior para criar uma imagem de força internamente, só que ele está em um contexto regional muito complicado e tenta jogar em dois cenários ao mesmo tempo, só que cada um dos cenários vai se enfraquecendo", comenta.

Crise social e econômica europeia passa pela energia

Um dos principais catalisadores dos impactos na Europa, inclusive nas maiores economias da região, como França e Alemanha, é o encarecimento da energia decorrente das sanções aplicadas contra a Rússia. Conforme elucida Pedro Martins, a situação expõe a vulnerabilidade do continente, que continua dependente dos recursos energéticos russos.

"Durante muito tempo, a UE viveu um equilíbrio entre dois polos. Havia o compromisso de segurança com os EUA e uma interdependência econômica muito grande com a Rússia, que permitia que esses países conseguissem manter os Estados de bem-estar social porque se tinha acesso à energia barata, como petróleo e gás. Com isso, se conseguia controlar a inflação, baratear e exportar seus produtos, inclusive para a Rússia, de novo, a interdependência econômica", destaca.

O analista também explica que, embora a energia nuclear seja a base da matriz elétrica francesa, o país ainda carece de alternativas sólidas para substituir os combustíveis fósseis, que são necessários no cotidiano do cidadão comum.

"A energia elétrica da França é nuclear, mas o combustível, que é usado no frete, no transporte marítimo, nos caminhões, enfim, no dia a dia dos franceses, é o petróleo, e se o seu preço sobe, o preço do combustível sobe muito. E isso gera um efeito inflacionário na cadeia. Enquanto a situação do preço do petróleo internacional continuar muito alta, vai haver esse tipo de problema", observa.

G7 libera reservas de petróleo e liga o sinal de alerta

Outro ponto levantado por Pedro Martins é a recente liberação de reservas estratégicas de petróleo pelo G7, grupo composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. Para o especialista, a medida não apenas expõe a gravidade da crise energética em curso, mas também está longe de representar uma solução definitiva a longo prazo.

"Quando o G7 solta o petróleo, está tentando forçar uma queda no preço do petróleo para manter a inflação sob controle. Então, isso é uma forma de tentar manter a estabilidade econômica. O problema é que a reserva um dia acaba. Eles não podem ficar liberando reserva porque uma hora isso vai acabar. Isso é um problema econômico, ecológico e político e pode se transformar num problema político social", conclui.

Em um mundo cada vez mais globalizado e de economias interdependentes, é inevitável que a turbulência de um país contamine outras nações, sobretudo as geograficamente mais próximas. Nesse cenário de interconexão, a política regional acaba sendo a primeira afetada, um reflexo nítido do que se observa hoje na França dentro do contexto europeu.