POLÍTICA

Resultados das urnas surpreendem e perfil do Congresso muda para 2027

Lula fala em mudanças e Flávio Bolsonaro vê vitória como sinal de desejo de renovação entre os eleitores.

Por Sputnik Brasil Publicado em 04/10/2026 às 23:45
Análise dos resultados do primeiro turno das eleições e suas implicações políticas. © Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto

De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou um "resultado inesperado" e prometeu mudanças para conquistar a virada. Enquanto isso, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmou que o primeiro turno mostrou que o "Brasil quer mudança". Especialistas analisam o recado das urnas e como deve ficar o Congresso em 2027.

"Confesso que estava convencido de que ia ganhar as eleições em primeiro turno". Assim o presidente Lula abriu o discurso após a confirmação do segundo turno das eleições no Brasil. Porém, diferentemente de 2022, o petista não larga na primeira posição e viu uma diferença de votos superior a dois milhões. Mesmo assim, prometeu convencer os mais de 33 milhões de brasileiros que não compareceram aos locais de votação neste domingo (4).

Já Flávio Bolsonaro, que liderou o pleito, disse que o resultado mostra que a palavra de ordem no Brasil é "mudança". Ao conversar com a imprensa em Brasília, o candidato do PL ainda prometeu reduzir impostos e acabar com a reeleição. "Fiquei feliz com a quantidade de brasileiros que foram às urnas. É o fim da era do PT, está decretada a mudança no país", afirmou.

Para além do pleito presidencial, uma das eleições mais surpreendentes das últimas décadas terminou com governadores eleitos em primeiro turno em 20 estados, um número recorde, e ainda o avanço sem precedentes do PL: 121 das 513 cadeiras na Câmara dos Deputados e conquistar mais 19 no Senado, somando o total para 28, o segundo maior número de um partido desde a redemocratização.

O doutorando em ciências sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e professor de direito constitucional da Universidade Cândido Mendes, Victor Escobar David, afirma à Sputnik Brasil que, diferentemente do que apontavam as pesquisas, houve um grande crescimento das candidaturas de direita na reta final da campanha.

"Muitos foram impulsionados pelo crescimento do candidato Flávio Bolsonaro. Então, quando vamos ver a composição do Senado, a vitória de governadores em estados-chave em primeiro turno, a distância em São Paulo que o governador Tarcísio de Freitas conseguiu abrir em relação ao [candidato do PT] Fernando Haddad, além do resultado em Minas Gerais [que elegeu Cleitinho Azevedo como governador]. Então, já se desenhava como uma das eleições mais imprevisíveis da história do Brasil, mas hoje o resultado se aproximou de uma das piores perspectivas que o campo progressista tinha para o pleito", analisou.

Para o especialista, o momento atual é ruim para Lula conquistar a reeleição, que esperava conquistar um novo mandato já no primeiro turno e, caso isso não se concretizar, ao menos largar na dianteira para o pleito suplementar. Aliado a isso, o professor de direito constitucional cita um fenômeno que tem se consolidado cada vez mais no Brasil: o nível acima da polarização. "Seria uma calcificação do eleitorado. Temos o eleitorado do Lula, o eleitorado do Bolsonaro e o que estaria em disputa seria um percentual de mais ou menos 2% das pessoas que votam. Mas o resultado mostrou que essa parcela já parece ter migrado para a campanha do Flávio", acrescenta.

Apesar disso, David também vê fatores importantes que podem contribuir para uma virada ou não do presidente Lula. "Continuo acreditando que a votação do Flávio Bolsonaro acaba sendo não tão entusiasmada como foi na comparação com o pai [o ex-presidente Jair Bolsonaro]. E talvez, como as eleições já terminaram nesses estados-chave, existe a possibilidade de haver uma desmobilização a partir dos governadores, senadores e deputados já eleitos, até porque para eles, o pleito já terminou", resume.

Disputa pelos votos de Augusto Cury e Ronaldo Caiado

A cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, lembra à Sputnik Brasil que há possibilidade de o presidente Lula "conquistar os votos de Augusto Cury e Ronaldo Caiado" que ainda não foram para Flávio Bolsonaro. Juntos, os candidatos do Avante e do PSD obtiveram seis milhões de votos.

"Muitos desses eleitores não foram sensibilizados pelo discurso do voto útil, então são menos suscetíveis a isso. Outro desafio é também reduzir a abstenção, que foi de 21 pontos percentuais. Se você conseguir reduzir para 20 pontos percentuais, que é a média histórica, só disso você já tem mais de um milhão de votos", afirma.

Já em relação ao Congresso Nacional, a especialista acredita que a composição das duas casas legislativas ficou ainda mais conservadora quando comparada às eleições de 2022. Conforme Goulart, o fenômeno não foi causado por uma redução "expressiva" dos parlamentares de esquerda, mas sim pela expansão do PL dentro da própria direita.

"É uma sigla mais coesa e com um voto mais ideológico e extremista. Mas a hegemonia do PL no Senado é ainda mais perigosa, porque a Casa tem essa possibilidade de investir contra os demais poderes com a figura do impeachment", justifica.

O doutorando em ciências sociais da UFRRJ acrescenta ainda que a sigla de Flávio Bolsonaro conseguiu tomar o espaço principalmente do centrão, já que, segundo ele, em pleitos anteriores partidos como PP, União Brasil e Republicanos conseguiam mobilizar eleitores bolsonaristas, algo que não se concretizou tanto neste ano. "Vejo que essa direita bolsonarista migrou para o PL, que é o grande vencedor das eleições de 2026 no Brasil, sem dúvidas", concluiu.