África assume protagonismo no cenário global do século XXI
O continente deixa de ser objeto de exploração e ganha voz nas relações internacionais.
Alvo de cobiça e exploração durante séculos e ainda lutando contra o neocolonialismo, a África deixa de ser vista como mero objeto de disputas e se consolida como ator geopolítico cada vez mais relevante. "Sujeito sempre foi, mas a questão é a forma como sempre foi representada e sempre foi invisibilizada na arena internacional", afirma analista.
O continente amplia sua capacidade de articulação por meio de instituições e mecanismos de integração regional, como a União Africana e a Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA).
Essa transformação ocorre em meio à crescente presença e disputa por influência de potências como China, Estados Unidos, Rússia e União Europeia, além de países como Turquia e as monarquias do Golfo. Paralelamente, as nações africanas buscam ampliar sua autonomia e aproveitar o potencial de recursos estratégicos, como lítio, cobalto, cobre, urânio e terras raras.
O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, aborda as principais questões geopolíticas que moldam o futuro do continente, incluindo integração regional, crescimento populacional e urbanização, mudanças climáticas, segurança alimentar, transição energética e a projeção da África como um novo polo de poder no sistema internacional.
Para Carolina Ferreira Galdino, doutora e mestre em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre África e Relações Étnico-Raciais (NEARE) da PUC-SP, a mudança representa uma passagem da condição passiva para a de ativa nas relações internacionais.
Segundo ela, essa transformação ganhou impulso a partir do início do século XXI, com a criação e o fortalecimento de instituições voltadas à articulação dos próprios países africanos. Um dos principais marcos foi a criação da União Africana, em 2002, que abriu novos espaços para que os governos do continente discutissem seus problemas e formulassem respostas conjuntas.
"Então, ao fazer parte ou ao edificar novas instituições internacionais, ou conseguir ingressar efetivamente em novas instituições, organizações internacionais, a África acaba deixando de ser objeto e se transforma em sujeito", explica. "Sujeito sempre foi, mas a questão é a forma como sempre foi representada e sempre foi invisibilizada na arena internacional."
Assim, a criação de mecanismos continentais também está associada à tentativa de formular respostas a partir das próprias necessidades da região. Galdino destaca que, especialmente após 2002, ganha força a ideia de pensar os problemas africanos levando em consideração soluções formuladas no próprio continente.
A mudança, porém, não significa que os obstáculos tenham desaparecido. A situação deve ser analisada considerando simultaneamente os desafios e as oportunidades disponíveis. A existência de instituições e iniciativas de integração cria possibilidades, mas sua concretização depende de vontade política, recursos e capacidade de implementação.
Essa perspectiva também aparece na Agenda 2063, plano estratégico da União Africana que estabelece objetivos de longo prazo para o desenvolvimento do continente. Embora nem todas as metas tenham sido alcançadas na primeira década, Galdino avalia que a iniciativa oferece uma direção para os países africanos perseguirem seus próprios interesses.
Mais do que estabelecer metas econômicas e políticas, a agenda também expressa uma mudança na forma como o continente busca se apresentar internacionalmente. Em vez de ser visto apenas como receptor de ajuda externa, a África procura se consolidar como parceira estratégica e ator relevante no sistema internacional. "É como se nós conseguíssemos vislumbrar uma possibilidade, uma rota, e isso acaba sendo importante".
Mais opções de negociação
A busca por maior protagonismo ocorre, entretanto, em um ambiente marcado pela disputa entre diferentes potências. Para Gustavo de Carvalho, chefe de programa do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA, na sigla em inglês), a presença simultânea de China, Estados Unidos, Rússia, União Europeia e outros atores cria novas possibilidades de negociação para os governos africanos.
Segundo ele, o objetivo de diversos países é evitar que qualquer parceiro externo seja considerado exclusivo. A diversificação permite ampliar as alternativas disponíveis em áreas como comércio, infraestrutura e segurança.
Galdino descreve essa estratégia como uma espécie de "equidistância pragmática", na qual um país pode estabelecer relações comerciais com determinado parceiro e, ao mesmo tempo, buscar cooperação em segurança com outro.
"Essa equidistância pragmática seria o fato de poder dialogar comercialmente com um determinado parceiro, dialogar no que se refere a processos de cooperação na área de segurança com outro parceiro, então isso acaba dando uma maior margem de manobra."
Carvalho, porém, chama atenção para outro lado dessa dinâmica. A multiplicação de parceiros não significa necessariamente o fim das relações de dependência. A estratégia africana precisa evitar simplesmente trocar uma dependência por outra e, em vez disso, fortalecer mecanismos próprios de integração econômica e produtiva.
Nesse sentido, iniciativas como a AfCFTA e sistemas continentais de pagamentos podem ajudar a criar um ambiente no qual decisões estratégicas sejam tomadas dentro do próprio continente. A ideia é fazer com que os parceiros externos participem de um ecossistema no qual a África tenha maior capacidade de definir suas prioridades.
China, Rússia e a diversificação
A diferença entre a atuação de China e Rússia ajuda a ilustrar essa estratégia. Enquanto Pequim consolidou uma presença econômica de longo prazo e se tornou um importante parceiro comercial de diversos países africanos, Moscou mantém uma atuação mais concentrada em determinados campos, sobretudo político e de segurança.
Para Carvalho, essa presença não deve ser interpretada necessariamente como uma escolha entre diferentes blocos geopolíticos. A entrada de novos atores representa, em grande medida, uma ampliação das opções disponíveis aos governos africanos. "A diversificação de atores, em grande medida, é por si só uma busca por autonomia".
Essa diversificação também se manifesta na perda de espaço de parceiros tradicionais em algumas regiões. No Sahel, por exemplo, o especialista considera a redução da influência francesa um movimento de forte significado político, diante do desgaste acumulado pela presença francesa em áreas como política, segurança e economia.
Ao mesmo tempo, China, Rússia, Índia e países do Golfo ampliam suas relações com diferentes nações africanas. Dessa maneira, o desafio não é apenas compreender o que essas potências procuram no continente, mas estabelecer uma estratégia própria sobre o que os países africanos pretendem obter dessas relações.
Juventude como ativo econômico
Outro fator que pode alterar o peso internacional da África é sua estrutura demográfica. O continente possui uma população jovem e em expansão, o que pode representar tanto uma oportunidade econômica quanto um desafio social.
Para Galdino, o potencial econômico dessa juventude está condicionado à capacidade dos governos de transformar o crescimento demográfico em capital humano qualificado. A pesquisadora ressalta que o tamanho da população, por si só, não garante maior competitividade.
"Então o aumento da competitividade do continente africano não está atrelado à densidade demográfica. Está atrelado aos recursos adequados que vão ser mobilizados para formar quadros que possam pensar e implementar medidas que se coadunem aos interesses das populações africanas."
Nesse processo, a educação ocupa papel central. Galdino defende que a formação dos jovens combine conhecimentos contemporâneos, como engenharia, tecnologia, inovação e empreendedorismo, com saberes e especificidades locais. A ideia, segundo ela, é formar profissionais capazes de identificar e solucionar problemas a partir das próprias necessidades das comunidades africanas.
A especialista cita ainda o panafricanista Joshua Maponga, que defende a combinação entre conhecimentos locais e formação voltada ao empreendedorismo, à engenharia e à inovação. Para Galdino, essa abordagem permitiria desenvolver uma força de trabalho preparada para responder aos desafios do próprio continente, sem desconsiderar as transformações tecnológicas e econômicas contemporâneas.
Ao mesmo tempo, a dimensão demográfica pode ampliar o mercado consumidor e a capacidade de atração de investimentos. Galdino cita projeções de crescimento da população da África Subsaariana e destaca que uma população numerosa e jovem pode representar um mercado interno em expansão.
O potencial, entretanto, convive com limitações estruturais. Sem investimentos suficientes em educação, qualificação profissional e geração de oportunidades, o crescimento da população pode não se converter em desenvolvimento e contribuir para a manutenção de relações de dependência.
Minerais estratégicos e poder de barganha
A abundância de minerais estratégicos para setores como tecnologia, indústria e transição energética coloca países africanos no centro da disputa internacional por cadeias de fornecimento. Para Carvalho, a questão fundamental é definir para quem esses minerais são considerados críticos. Enquanto potências buscam reduzir sua dependência de determinadas cadeias globais, a perspectiva africana deveria priorizar o uso desses recursos para o próprio desenvolvimento.
"Dentro do continente, a visão que deve ser central nesse processo é uma visão de que esses minerais têm de ser críticos ao próprio processo de desenvolvimento africano."
A disputa já amplia as possibilidades de negociação para países da África Central, como a República Democrática do Congo e a Zâmbia. Carvalho cita o Corredor do Lobito, que liga áreas produtoras de minerais ao litoral de Angola, e as alternativas de escoamento mantidas pela China em direção ao Oceano Índico.
Sobretudo, o aumento do poder de barganha depende também da capacidade de processar os recursos e agregar valor dentro do continente, vinculando a mineração a políticas industriais próprias.
Nesse sentido, a disputa internacional por recursos estratégicos pode ampliar o espaço de negociação da África, mas a consolidação de seu protagonismo dependerá da capacidade de transformar essa posição estratégica em desenvolvimento interno.