Mudanças na ordem global: uma análise
Especialistas discutem a atual fragilidade da ONU e o impacto da nova geopolítica mundial em entrevista ao podcast Mundioka.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas destacam o abandono sistemático dos Estados Unidos dos órgãos multilaterais e defendem a importância dos atores regionais, como o Brasil, na nova estrutura de poder mundial.
A Organização das Nações Unidas é criada em 1945, após o fim do maior conflito da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial. A instituição é concebida em um contexto em que governos com diferentes abordagens entendiam ser necessária a manutenção da paz e da segurança internacional, evitando uma eventual escalada bélica a nível global.
Com o passar do tempo, outros órgãos multilaterais surgiram, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), mas nenhuma destas instituições tem ou teve o destaque que a ONU alcançou ao longo dos anos. Hoje, no entanto, ela vive uma crise.
Com o seu principal fiador, os Estados Unidos, cortando suporte financeiro e descredibilizando a atuação da organização, a ONU se encontra em seu momento mais frágil desde a fundação. Essa conjuntura se reflete também no restante do multilateralismo mundial, abraçado por alguns países, em especial aqueles que fazem parte do Sul Global, diante das ações econômicas de Washington, norteadas por tarifas e sanções.
Um dos grandes alvos da guerra comercial da Casa Branca é a China, que, na época em que a ONU foi criada, estava longe de ser a grande potência que é hoje. Capitaneada pela indústria de tecnologia de ponta dos chips, Pequim hoje é a maior pedra no sapato do governo republicano, que luta para manter o status hegemônico que construiu após a Segunda Guerra Mundial no mundo ocidental.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que a ordem global que conhecíamos passa por uma ruptura e por uma reorganização, restando saber se esta imprevisibilidade econômica e de segurança será momentânea ou uma instabilidade permanente até uma nova potência hegemônica ditar os rumos globais.
Guilherme Frizeira, mestre em ciências e integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), doutor em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor coordenador do curso de relações internacionais do Centro Universitário Internacional (Uninter), acredita que o atual momento das relações internacionais se baseia entre a instabilidade da antiga ordem global e o surgimento da nova, que ainda não nasceu.
"Na virada do século XX para o século XXI, já nos ataques do 11 de setembro de 2001, ali nós já começamos a ver alguns dos princípios dessa ordem internacional, liberal, democrática, começando a ruir. E agora, um pouco mais de um quarto de século desde esses atentados, a gente está vendo que ela não se sustenta mais."
Frizeira entende que há dois processos simultâneos acontecendo: ainda que os Estados Unidos sejam poderosos e possuam as maiores forças armadas do mundo, Washington já não é mais visto como o farol da civilização ocidental, um exemplo da democracia liberal ancorada em regras, normas e procedimentos. O especialista destaca que, por mais que os acordos celebrados com a Casa Branca fossem quase sempre desvantajosos para o outro lado, tinha-se uma certeza de que eles seriam respeitados pelos norte-americanos, o que não acontece mais.
"Não é um fenômeno porque é o governo Donald Trump, é um sinal que vem acontecendo já há algum tempo. E então a gente viu que a própria ordem que foi construída pelos Estados Unidos, em larga medida, também é a ordem à qual os próprios Estados Unidos deram fim. Foi o país precursor da ordem que a gente conhece e também o país que deu fim a ela."
Natali Hoff, doutora em ciência política e professora do curso de relações internacionais no Uninter, vê Trump como um catalisador desse processo de ruptura com as entidades multilaterais, mas não como o principal responsável pelo abandono dos EUA a essa ordem estabelecida pós-Segunda Guerra Mundial.
"Essa postura foi mudando com o tempo e ela foi mudando, na minha concepção, por vários aspectos. Um deles, que é importante a gente tocar, diz respeito aos custos. Acho que, com o passar do tempo, os Estados Unidos foram identificando que os custos para manter esse tipo de projeção tão ampliada em âmbito global eram bastante elevados. E aí a gente percebe uma retração gradual por parte dos Estados Unidos com relação à presença no mundo, que vai começar ali pelo fim dos anos 1990 e, principalmente, nos anos 2000, que é quando essa expectativa fica muito perceptível."
Hoff explica que, após o fim da Guerra Fria, existe um otimismo ocidental de que os valores impostos pelos Estados Unidos do capitalismo liberal se espalhariam pelo mundo. No entanto, a invasão do Iraque, em 2003, sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU, mostrava que Washington não mais seguiria os parâmetros estabelecidos, em grande medida, por si mesmos.
Aliada a essa individualidade norte-americana, a especialista aponta como causa para a mudança de ordem global a ascensão chinesa e a retomada de protagonismo russo, principalmente a nível europeu, onde os outros países lidam com um continente "decaído em comparação com o que já foi um dia".
"A perda relativa de capacidade de liderar [dos Estados Unidos], de produzir consenso, é o que a gente vem observando com relação a Washington nas últimas décadas, seja porque a gente tem um mundo mais policêntrico, com outros polos de poder, ou porque os próprios americanos vão passando a adotar posturas mais unilaterais, mais autocentradas, que vão ali colidindo com os compromissos assumidos, sejam nas instituições ou nas parcerias que eles têm."
Como pode ser a próxima ordem mundial?
Após a Segunda Guerra Mundial, existia uma divisão palpável de mundo: existiam aqueles que apoiavam os Estados Unidos e aqueles que estavam com a União Soviética, sobrando pouco espaço para o meio termo. Com a dissolução do bloco soviético, Washington passou a ditar tendências, mas este espaço parece já não poder mais ser ocupado por um único player.
Frizeira comenta que há, atualmente, um vácuo na estrutura internacional que promove protagonismos pontuais em assuntos específicos de países como África do Sul, Brasil, Índia, México e Turquia.
"Você não chegaria a um bom acordo global de meio ambiente sem envolver o Brasil, ou não chegaria a um regime de política global de ciberespaço, inteligência artificial, sem a Índia. Então, você tem que incorporar o que chamo de países não hegemônicos, porém sistemicamente relevantes."
Para Frizeira, vivemos um mundo multipolar, mas sem duas forças gravitacionais, como EUA e URSS já foram outrora. Esta conjuntura, por sua vez, pode culminar em um mundo de instabilidade cada vez mais crescente, ainda que o principal ator do momento, a China, não tenha características como as norte-americanas.
"Os Estados Unidos vão sendo um polo, a China vai ser um polo, mas eles não são iguais. A China não tem, ou ao menos não sinaliza ter, um comportamento hegemônico semelhante ao dos Estados Unidos. Ela tem mais interesse comercial e ponto. Não tem, ao menos hoje, uma ânsia de ficar interferindo em assuntos domésticos em todo o globo, como os Estados Unidos tiveram no passado e estão tendo agora novamente."
Já Hoff entende que o respeito ao direito internacional depende da vontade política das nações de questionarem ações indevidas que violem os direitos humanos ou as leis impostas pelas instituições por meio de mecanismos como sanções econômicas e comerciais.
"Todo esse conjunto normativo institucional é muito importante. Só que, por conta do princípio de soberania e de como a política internacional opera, ele ainda é limitado à vontade política dos Estados."
Na opinião de Hoff, por mais que a ONU esteja em um momento delicado, as nações de médio porte não estão dispostas a deixar este espaço de diálogo se fechar.
"[A ONU] hoje é um espaço bastante disfuncional e que precisa ser, de alguma maneira, revisado, revisitado pelos atores internacionais para que ele volte a ter uma centralidade maior na política internacional. Mas aí esse processo de transformação da ONU vai depender desses Estados que hoje têm maior capacidade de influência e de projeção de poder no campo internacional."