POLÍTICA

O papel da América Latina na sucessão presidencial dos EUA

Secretário de Estado pode consolidar sua imagem dentro do Partido Republicano por meio de relações na região.

Por Sputnik Brasil Publicado em 17/09/2026 às 15:52
Marco Rubio busca consolidar sua imagem por meio da política latino-americana frente à sucessão presidencial nos EUA. © AP Photo / Manuel Balce Ceneta

Em meio à disputa pela sucessão de Donald Trump, a agenda de influência dos Estados Unidos na América Latina pode se tornar uma vitrine para o secretário de Estado Marco Rubio e consolidar seu espaço dentro do Partido Republicano.

A atuação de Rubio na América Latina ganhou novo peso com a aproximação de Washington de governos conservadores da região. Em agenda passando por Colômbia, Equador e Peru, o secretário tem priorizado acordos de segurança, combate ao narcotráfico, migração, comércio e contenção da influência chinesa, fortalecendo relações com governos ideologicamente alinhados ao presidente Donald Trump.

Ao mesmo tempo em que a estratégia assegura influência regional aos Estados Unidos, ela também pode produzir efeitos na disputa pela sucessão de Trump na Casa Branca em 2028. Enquanto o vice-presidente J. D. Vance aparece com 43% das preferências em uma pesquisa sobre uma eventual primária republicana, Rubio registra 21%, segundo levantamento da Focaldata para o Financial Times.

Para Gustavo Macedo, professor de relações internacionais do Insper, a disputa pela sucessão de Trump já ocorre dentro do Partido Republicano e pode produzir efeitos antes mesmo da eleição presidencial de 2028. Segundo o especialista, o desempenho do governo nas eleições de meio de mandato pode alterar o equilíbrio político dentro do partido e ampliar a competição entre os possíveis sucessores.

"Há uma crise que eles estão tentando manter sob controle dentro do Partido Republicano, que é uma eventual necessidade de sucessão do Trump antes de 2028", afirmou Macedo. Para o professor, embora 2028 permaneça como o calendário formal para a sucessão presidencial, a competição entre os possíveis herdeiros de Trump já está em andamento.

América Latina como vitrine para Rubio

Nesse cenário, a América Latina pode oferecer a Rubio uma oportunidade de construir uma imagem própria dentro do Partido Republicano. Para Flavia Loss, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o secretário tem conseguido apresentar a região como uma frente em que os Estados Unidos alcançaram resultados de acordo com seus objetivos, em contraste com dificuldades enfrentadas pela política externa norte-americana em outras partes do mundo.

Segundo ela, Rubio tem construído a imagem de um político com domínio de relações internacionais e capacidade diplomática, especialmente entre o eleitorado republicano. Loss aponta que avanços da política externa estadunidense na Venezuela e a pressão sobre Cuba são apresentados como resultados positivos associados à atuação do secretário.

"A América Latina tem servido como um lugar em que os Estados Unidos obtiveram vitórias, entre muitas aspas, ao contrário dos outros problemas em outras regiões do mundo, como no Oriente Médio."

Rubio conseguiu ainda, dentro do governo, estabelecer uma distinção entre sua atuação diplomática e eventuais dificuldades atribuídas à política externa de Trump. Nesse sentido, resultados negativos em outras regiões não necessariamente atingiriam sua imagem da mesma maneira, enquanto sua atuação latino-americana poderia reforçar sua posição dentro do Partido Republicano.

Na sua avaliação, a agenda de Washington para a América Latina está concentrada principalmente em três temas: commodities, migração e avanço de forças políticas de direita na região. A professora considera que esses assuntos definem boa parte da maneira como os países latino-americanos são incorporados ao debate de política externa dos Estados Unidos.

A aproximação com governos conservadores também teria uma dimensão eleitoral doméstica. Rubio pode fortalecer sua posição entre eleitores republicanos ao se apresentar como um defensor de governos ideologicamente alinhados ao movimento MAGA e como um político disposto a conter aquilo que setores conservadores estadunidenses identificam como uma ameaça comunista na América Latina.

A origem cubana de Rubio também contribui para essa narrativa, segundo a professora. O fato de o secretário ser descendente de cubanos é utilizado para reforçar sua identificação com setores conservadores da comunidade latina nos Estados Unidos, especialmente entre grupos de origem cubana e venezuelana. "Ele é visto com um cara que está impedindo o avanço do comunismo".

Recursos estratégicos e influência regional

A importância da América Latina para a sucessão republicana, contudo, não estaria restrita à disputa ideológica. Macedo relaciona a região à competição tecnológica dos Estados Unidos, especialmente pela necessidade de garantir acesso a recursos considerados estratégicos.

Para o professor, a liderança tecnológica dos EUA depende de uma combinação de mão de obra, materiais, energia e dados, que ele define como os "quatro ciclos da inteligência artificial". Nesse contexto, a América Latina ganha importância tanto pela disponibilidade desses recursos quanto por estar inserida na tradicional área de influência de Washington.

Macedo cita ainda a Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, publicada em novembro de 2025, como parte desse movimento, ao estabelecer a garantia do acesso a recursos energéticos como uma necessidade da política externa norte-americana. O documento também reforçaria a centralidade da América Latina na estratégia de Washington e uma atualização da chamada Doutrina Monroe.

"Essa dominação tecnológica tem o continente americano como um espaço vital para a permanência dessa dominação norte-americana."

Nesse sentido, o desempenho dos possíveis sucessores de Trump na condução das relações com a América Latina pode se tornar um dos elementos observados dentro do Partido Republicano. Macedo avalia que não basta defender a manutenção da influência norte-americana: também será necessário demonstrar capacidade de negociar e administrar relações com governos que não estejam alinhados politicamente a Washington.

"Qual é a posição dessas lideranças em relação a um país como o Brasil, caso você tenha a confirmação de um segundo mandato do presidente Lula? Se vai ser uma posição mais firme, mais negociadora."

A diferença entre a postura defendida pelos possíveis sucessores diante de países latino-americanos pode, portanto, tornar-se parte da própria disputa interna do Partido Republicano. "Uma coisa é a ideia de como essa região deve ser administrada, a outra é até que ponto essa pessoa demonstra habilidade para administrar essa região."

Rubio e Vance

Entre os dois, a professora vê que Rubio acumula maior experiência em política externa e combina uma visão fortemente vinculada à agenda MAGA com algum grau de pragmatismo na condução das relações internacionais. Vance, por outro lado, ainda tem experiência mais limitada na área externa.

Loss afirma que o vice-presidente é mais associado à agenda doméstica e que sua atuação internacional ainda não permite avaliar com clareza como conduziria a política externa caso chegasse à Presidência.

A professora acrescenta que há, nos bastidores de Washington, a percepção de que Vance poderia adotar uma política externa mais previsível do que a de Trump, com objetivos mais claros para aliados, especialmente os europeus. Porém, essa possibilidade ainda é uma conjectura, dada a experiência limitada do vice-presidente na condução da política internacional.

Existe a possibilidade de Trump apoiar Vance como seu sucessor, embora outros nomes, como Rubio e Ron DeSantis, possam permanecer no debate republicano. Nesse cenário, a atuação internacional de Rubio na América Latina se torna uma das ferramentas para ampliar sua projeção política, sem necessariamente alterar a posição de Vance como principal nome associado à sucessão de Trump.

Brasil e México sob pressão

A disputa sucessória também pode ter consequências para Brasil e México, dois dos principais países latino-americanos nas relações com Washington. Macedo aponta o Brasil como um possível teste para a capacidade dos futuros líderes republicanos de administrar relações com governos politicamente diferentes dos Estados Unidos.

Para Loss, porém, a influência de Brasil e México sobre a disputa política norte-americana é limitada. Segundo a professora, os dois países aparecem no debate doméstico dos EUA principalmente a partir de temas como imigração, narcotráfico e segurança. "Então, muito difícil pensar em qualquer tipo de papel que a gente possa desempenhar, porque sempre entramos nas discussões dentro dos Estados Unidos, da política doméstica, com essas agendas negativas".

Macedo acrescenta que embora o Brasil tenha pouca influência sobre a política doméstica dos EUA, o resultado das eleições brasileiras pode ser utilizado politicamente por Washington. Uma eventual vitória de Lula poderia ser pouco explorada, por poder ser interpretada como uma derrota da diplomacia de Washington, enquanto uma vitória de um candidato alinhado a Trump poderia ser apresentada como demonstração de apoio internacional ao governo republicano.

"Ou eles deixam quieto, eles abafam o caso e não mexem muito com o Brasil, ou eles usam o resultado das eleições brasileiras como uma forma de reafirmar a legitimidade internacional de um governo que neste momento sofre com a sua imagem domesticamente."

O professor também avalia que a associação de Rubio e Vance a candidatos brasileiros cria riscos para os próprios políticos estadunidenses, caso seus aliados sejam derrotados. Segundo Macedo, Rubio precisa evitar uma associação excessiva com um candidato que enfrenta uma disputa eleitoral incerta e denúncias que podem afetar sua imagem.

Para Loss, a situação exige cautela dos governos brasileiro e mexicano. "É um momento de extrema cautela para a política externa, tanto do México quanto do Brasil".