Teologia do domínio e suas implicações na política brasileira
Especialistas analisam o crescimento do fundamentalismo e seus impactos na liberdade religiosa.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas destacam que a teologia do domínio, uma construção transnacional iniciada nos EUA, avançou na política brasileira trazendo a ideia de um Estado teocrático, que coloca em risco a soberania e a liberdade religiosa.
Em junho, a líder religiosa e coach cristã nigeriana Obii Pax-Harry visitou o Brasil, tendo na agenda um encontro com a ex-primeira-dama e atual candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL).
Pax-Harry está à frente da teologia da dominação, também chamada de teologia do domínio, corrente fundamentalista cristã criada nos EUA, que determina que religiosos dessa vertente assumam o poder político e ocupem todos os espaços da organização da sociedade, criando uma espécie de Estado teocrático. O encontro com Michelle, que lidera as pesquisas no Distrito Federal, sinaliza que a teologia do domínio ganhou força no Brasil, alimentada principalmente por políticos radicais de direita.
À Sputnik Brasil, Maxwell Teixeira, mestrando em sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), explica que a teologia do domínio não é uma igreja em si e nem uma organização única, mas uma categoria analítica, que determina que a Bíblia deve fundamentar a compreensão e a organização da sociedade.
“Estamos falando de família, educação, economia, governo, Estado, moralidade, relações sociais. Então, olhar para a teologia do domínio abrange muito mais do que simplesmente falar que os cristãos estão votando ou estão interessados em encargos públicos.”
O especialista explica que essa corrente religiosa chegou ao Brasil no início do milênio, quando o número de evangélicos no país começou a aumentar expressivamente, chegando a 26,9% em 2026.
Porém, isso não significa que todos os conservadores, cristãos ou evangélicos defendam a teologia do domínio. Ele aponta, por exemplo, que há um estigma de que “crente é tudo igual”, mas que isso é um erro de análise sociológica, uma vez que não há homogeneidade no grupo dos evangélicos e dentro da corrente há, inclusive, evangélicos progressistas.
“Uma pessoa pode defender posições conservadoras sobre família, sexualidade, sem necessariamente possuir uma concepção ‘dominionista’ da sociedade. Pode haver a participação de cristãos na política sem defender uma sociedade governada pela Bíblia.”
Ele aponta as chamadas “igrejas de garagens”, que são pequenos templos, diferente das grandes igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e o trabalho social que fazem dentro dos presídios e em outros lugares de total vulnerabilidades.
“Eu entendo que não basta apenas olhar para aquilo que as lideranças, e eu digo as grandes lideranças, fazem, mas para aquilo que as bases estão fazendo, para aquilo que elas acreditam, para aquilo que elas reinterpretam”, afirma.
Em sua fala à reportagem, ele elenca o desencantamento político como um dos motores de difusão de ideias como a da teologia da dominação, sublinhando que boa parte dos brasileiros foram criados dentro de uma perspectiva cristã, muitos deles em uma leitura fundamentalista das escrituras sagradas.
“O que você vai ver é esse levantamento de ‘Olha, nós estamos tirando a nossa nação do império das trevas, nós estamos resgatando os valores cristãos, chega de corrupção, chega de bandidagem’ e todos esses discursos que vão alimentando e trazendo de volta esse olhar”, pondera o pesquisador.
Teixeira, que é autor do livro Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil, uma coletânea sobre experiências interreligiosas, enfatiza que o avanço de correntes evangélicas radicais ameaça aumentar a intolerância religiosa contra, por exemplo, religiões de matrizes africanas, que também cresceram no Brasil nos últimos anos.
Isso porque, se durante o período da escravidão os negros e seus cultos religiosos já eram apontados como opostos ao cristianismo europeu, essa visão é agravada pela teologia da dominação. “Outras religiões vão passar a ser vistas como inimigos”, observa o pesquisador.
Já o pastor Sergio Dusilek, doutor em ciência e religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), considera a teologia da dominação uma radicalização do fundamentalismo cristão estadunidense, que visa criar uma “sharia gospel”.
Dusilek explica que essa tendência agrava a polarização política porque uma pessoa radicalizada pelo fundamentalismo, uma vez que qualquer ataque a suas convicções é visto como um “ataque do diabo”.
Origem nos EUA
O especialista explica à Sputnik Brasil que essa abordagem é, em alguns momentos, chamada de reconstrucionismo porque seus fundadores defendem que os Estados Unidos foi fundado sob uma percepção bíblica e cristã, mas ao longo do tempo se afastou desse modelo, que precisaria ser retomado.
Para o teólogo, há uma confluência e uma ação coordenada da extrema-direita política com os dominionistas. “Sempre houve a procura de explorar politicamente a religião e os votos contidos nas diferentes tradições religiosas.”
“A novidade é o açodamento e também o despudor com que isso é feito nesse instante, nessa quadra histórica que nós estamos, em nome dessa proximidade maior com o poder instituído, ou na tentativa de conseguir alcançar os poderes instituídos.”
Dusilek alerta ainda para o fato da teologia do domínio colocar em risco a soberania de países uma vez que “os recursos que vêm para propagar esse tipo de teologia são majoritariamente estadunidenses.”
O uso da religião na disputa eleitoral
Hoje, um dos principais eleitorados do país é o evangélico e, ainda que ele não seja um bloco monolítico, os políticos tentem capturar esse voto para si através de aproximações com líderes de grandes denominações.
Segundo Dusilek, nos anos 1990 e 2000, a estratégia usada por líderes religiosos para persuadir fiéis, transformando-os em eleitores, era a indicação de púlpito; hoje esse modelo não surte mais tanto efeito. A grande estratégia agora são as redes sociais, principalmente grupos de WhatsApp e Telegram das igrejas.
Diante disso, ele avalia que a regulamentação das Big Techs, as empresas por trás das plataformas de redes sociais, contribuiria para conter essa tendência.
Outro ponto abordado pelo teólogo é a proeminência do pensamento religioso na disputa política. Dusilek afirma que se o pensamento fundamentalista de colocar a Bíblia acima da Constituição conseguisse lograr êxito, as consequências iriam além do fim da liberdade religiosa, acarretando também em um freio no progresso científico.
“A relação com a política é que a política se torna o espaço público, se torna o palco da disputa e, logicamente, da tentativa de tomada do poder, no primeiro momento pela via democrática, para logo depois, então, se instaurar uma ditadura religiosa.”
Outras consequências seriam a doutrinação do ensino para coadunar com a visão dominionista sobre a Bíblia, ataque às liberdades individuais e a condenação da população miserável à morte, pois eles são vistos pelos dominionistas como pecadores ou preguiçosos.
“Eles não veem como um problema da injustiça do sistema ou de que o sistema gera a miséria para um lado, ao mesmo tempo que abarrota os ganhos para um pequeno grupo. Eles não conseguem ter essa percepção, rejeitam ela e acham que os miseráveis têm que ser abandonados à sua própria sorte.”