Desafios da ampliação do uso de drones nas Forças Armadas
Ministro da Defesa destaca investidas em tecnologia e a necessidade de incremento orçamentário para monitoramento das fronteiras.
Governo prevê ampliar uso de drones nas fronteiras, mas especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam desafios tecnológicos, orçamentários e logísticos.
Em entrevista ao jornal Metrópoles, o ministro da Defesa, José Múcio, afirmou que o Brasil pretende ampliar os investimentos em drones para reforçar a vigilância das fronteiras, diante da extensão territorial do país e das limitações do efetivo militar disponível. A medida, segundo ele, será viabilizada pelo aumento do orçamento da Defesa para o próximo ano.
Contando com cerca de 20 mil militares nas fronteiras brasileiras, a estratégia busca ampliar o uso de tecnologia no monitoramento de áreas de difícil acesso e no combate a crimes transfronteiriços, como tráfico de drogas, armas e garimpo ilegal.
Múcio ressaltou ainda a importância do uso de sistemas não tripulados, observada em conflitos atuais, além dos benefícios tecnológicos que o desenvolvimento de drones no Brasil poderia trazer ao país. O ministro afirmou que pretende visitar fábricas de drones na China e na Turquia para conhecer novas tecnologias e avaliar a possibilidade de incorporá-las ao sistema brasileiro de vigilância.
Além disso, fabricantes nacionais já apresentaram equipamentos durante um encontro realizado em Salvador há cerca de seis meses. Apesar disso, o ministro reconheceu que o Brasil ainda precisa avançar no desenvolvimento e na produção desses sistemas.
Os investimentos dependerão da ampliação dos recursos destinados à Defesa. Múcio afirmou ter discutido recentemente as projeções orçamentárias com a equipe técnica da pasta e disse esperar que o orçamento do próximo ano seja "razoavelmente alto" em comparação com os valores dos últimos anos.
Desenvolvimento de drones no Brasil
Em entrevista à Sputnik Brasil, o doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Paulo Henrique Montini, afirma que ainda há dúvidas a serem esclarecidas sobre o programa de drones brasileiro.
Por exemplo, que tipo de drones a Defesa está pensando em utilizar nas fronteiras. "Seriam drones de grande porte ou de pequeno porte?", indaga. Segundo o pesquisador, membro do grupo Sociabilidades e Conflitos Contemporâneos (SOCIATOS), o ideal seriam drones de menor porte. Esses modelos, diz, são os que têm quebrado paradigmas.
Ele explica que enquanto os drones menores são mais fáceis de montar, uma característica relevante para operações em áreas de difícil acesso, como a Amazônia, os maiores tendem a exigir mais estrutura de manutenção, peças específicas e treinamento especializado.
O Exército Brasileiro já utiliza alguns modelos, como o Nauru 1000C, Sistema de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) de Categoria 2 desenvolvimento pela XMobots, com cerca de oito metros de envergadura e autonomia de 10 horas, e o Nauru 500C, empregado em missões de inteligência, vigilância e reconhecimento, com alcance de até 60 quilômetros.
Em empregos similares, a China usa o CH-4, plataforma de maior porte voltada tanto para reconhecimento quanto para ataque, com autonomia de até 40 horas e capacidade para transportar até 345 quilos de carga.
Já a Turquia utiliza o Bayraktar TB2, drone de médio porte desenvolvido pela empresa turca Baykar e empregado em missões de reconhecimento, vigilância e ataque. O modelo possui cerca de 12 metros de envergadura, autonomia de até 27 horas e pode operar a uma distância de até 300 quilômetros da estação de controle.
O que preocupa Montini, também, é a questão orçamentária. A manutenção das verbas e o cumprimento dos pagamentos são pontos centrais, diante do histórico de atrasos da indústria de defesa brasileira.
"Os maiores problemas são sempre orçamentários. Saber se essas verbas de fato serão mantidas é importante. Nossa indústria de defesa é conhecida por não honrar com os pagamentos, sempre atrasando-os."
Para Montini, outro fator que limita a ampliação dos investimentos em tecnologia militar é o peso da folha de pagamento. Como explica, militares frequentemente priorizam recursos para salários e melhores condições de trabalho, enquanto os investimentos em equipamentos acabam lutando por espaço no orçamento. "A folha de pagamento é uma das maiores vilãs nos gastos de defesa".
Integração de inteligência
Para Sergio Amadeu, professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a ampliação do uso de drones também exige uma mudança na doutrina de defesa brasileira. Segundo ele, a aquisição dos equipamentos precisa ser acompanhada por uma estrutura capaz de integrar inteligência, logística, dados e operações militares.
"A inteligência e a ação de defesa são elementos que devem estar integrados."
Na avaliação do professor, os drones não devem funcionar como equipamentos isolados, mas como parte de um sistema mais amplo de monitoramento e defesa. As informações coletadas pelos aparelhos precisam chegar às estruturas responsáveis pela inteligência militar e ser utilizadas de maneira integrada às demais operações. Para isso, Amadeu considera necessário que as Forças Armadas disponham de uma infraestrutura própria para armazenamento e processamento desses dados.
Segundo Amadeu, o emprego de drones envolve necessariamente sistemas automatizados e tecnologias baseadas em dados, o que torna a proteção dessas informações parte da própria capacidade de defesa.
O professor defende, nesse sentido, a criação de data centers exclusivos das Forças Armadas como forma de reduzir a dependência de empresas estrangeiras em uma área considerada estratégica. "Segurança estratégica requer segurança de dados."
Montini também aponta a dependência tecnológica como um dos desafios para a expansão dos drones no país. Além de definir quais equipamentos serão utilizados, o Brasil precisa considerar sua capacidade de desenvolver, manter e atualizar essas tecnologias nacionalmente. A questão envolve não apenas a compra dos aparelhos, mas também o acesso a peças, sistemas e conhecimentos necessários para mantê-los em operação.
A integração defendida por Amadeu também passa pela diversificação das funções dos equipamentos. Os veículos não tripulados podem ser empregados em missões de reconhecimento, vigilância, inteligência, combate, logística e guerra eletrônica.
"Ele é um dispositivo múltiplo, ele é um dispositivo tático que pode ser empregado de modos variados."
Nesse cenário, Amadeu considera que os drones devem ser tratados como uma capacidade estratégica das Forças Armadas, e não apenas como ferramentas para ampliar a vigilância das fronteiras. Porém, a efetividade dependerá da existência de uma estrutura própria de dados, inteligência e logística e, principalmente, de uma doutrina militar capaz de orientar seu emprego.