ECONOMIA

BNDES institui centro de estudos para desenvolvimento na América Latina e Caribe

Iniciativa visa formular políticas para explorar recursos estratégicos e integração produtiva regional.

Por Sputnik Brasil Publicado em 15/09/2026 às 14:41
BNDES cria centro de estudos para políticas de desenvolvimento na América Latina e Caribe. © Divulgação BNDES/André Telles

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou a criação de um centro de estudos estratégicos para formular políticas públicas e planos de desenvolvimento voltados ao aproveitamento dos recursos estratégicos do Brasil e à articulação produtiva com os demais países da América Latina e do Caribe.

Entre as frentes que deverão estar no radar do novo centro estão os minerais críticos, projetos de infraestrutura e estratégias para ampliar a capacidade produtiva e tecnológica da região. O anúncio foi feito nesta terça-feira (15) pelo presidente do banco, Aloizio Mercadante, durante o evento 'Rupturas e oportunidades: propostas para que a América Latina e o Caribe prosperem na nova era geopolítica'.

Segundo Mercadante, o objetivo é fortalecer uma visão estratégica de longo prazo diante das mudanças nas cadeias globais de produção e da disputa tecnológica e econômica entre grandes potências. Para ele, Brasil e América Latina precisam construir um modelo de desenvolvimento econômico convergente, capaz de transformar seus recursos naturais e vantagens competitivas em capacidade industrial, tecnológica e maior participação nas cadeias de valor.

'É necessário fortalecer essa iniciativa de articulação produtiva, o avanço do investimento em infraestrutura, construir roteiros plurianuais. Estamos criando um centro de estudos estratégicos aplicados do BNDES para aprofundar esse papel', disse.

Entre os recursos que Mercadante considera estratégicos estão os minerais críticos, como lítio e terras raras. O presidente do BNDES afirmou que a simples existência dessas reservas não garante desenvolvimento e defendeu que os países da região avancem no processamento, na industrialização e no domínio tecnológico dessas cadeias. A mesma lógica, segundo ele, deve orientar o aproveitamento das vantagens latino-americanas nas áreas de alimentos e energia.

'Não basta ser uma grande fazenda, temos que industrializar e trazer conteúdo tecnológico e fortalecer uma neo-industrialização', afirmou.

Mercadante também apontou a cadeia alimentar como uma das principais vantagens da América Latina diante das mudanças na ordem global, com a necessidade de ampliar a produção de alimentos preservando os recursos naturais. A cadeia energética aparece como outro ativo estratégico, com o Brasil entre os grandes produtores de petróleo e avançando nos biocombustíveis, enquanto países como a Colômbia ampliam suas fronteiras de exploração de gás. Para o presidente do BNDES, o desafio é transformar essas vantagens em cadeias produtivas de maior valor agregado.

CEPAL defende cooperação pragmática para proteger riquezas estratégicas

A proposta de uma estratégia regional também foi defendida pelo secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), José Manuel Salazar-Xirinachs. Ele afirmou que os países não precisam abrir mão de suas diferenças políticas e econômicas para cooperar, mas devem construir uma articulação mais pragmática e menos rígida para proteger seus interesses e ativos estratégicos.

Para Salazar-Xirinachs, a região deve evitar alinhamentos automáticos em um cenário marcado pela disputa entre grandes potências. A recomendação é buscar consensos mínimos e acordos viáveis, que permitam aos países ampliar sua capacidade própria de decisão e evitar que suas riquezas estratégicas sejam utilizadas de acordo com interesses externos.

'Não seria uma utopia de cooperação máxima, a gente recomenda uma cooperação pragmática, para alcançar consensos mínimos', afirmou.

O secretário-executivo da CEPAL também alertou para o risco de a América Latina ser 'levada pela maré da história' caso não desenvolva uma estratégia própria. Na avaliação dele, minerais críticos, energia, alimentos e outros ativos dão à região uma posição estratégica, mas não garantem, por si só, desenvolvimento ou autonomia.